(Es) Colha

Imagine a seguinte cena, que se passa numa cidade grande (nas cidades pequenas também é possível):

João e Maria (ou qualquer outras duas pessoas que você conheça) saem de um shopping (ou de um cinema na rua mesmo) onde acabaram de ver um filme nacional (também pode ser algum norte-americano ou europeu).
João e Maria pegam o carro (ou a pé mesmo) e dirigem-se a um bar (restaurante também serve). No caminho, param num cruzamento e esperam sua hora de passar. Um menino muito pequeno, de 6 anos (sete, oito, não faz diferença), com olhos meigos e redondos (pode ser que tivesse o nariz escorrendo) gruda as mãos e os lábios no vidro, do lado de José (ou de Maria. É indiferente). O menino tem na mão uma caixa de bala (saquinho de amendoim, caneta, chiclete, coisas desse tipo) e pede com insistência que José compre. José diz que não (Aqui não há alternativa. É não mesmo!). Alguma coisa no menino causa uma dor grande demais, aperta até o limite aquele coração inchado. Ele, ali mesmo, grudado no vidro, abre a boca e chora dolorido, como se tivesse levado um tiro no pé (ou na mão. Dói do mesmo jeito). De dentro do carro, João e Maria conseguem ouvir o choro desesperado do menino (os soluços engasgados, a aspiração do pigarro que escorria pelo nariz, coisas que acontecem quando choramos com muita força). O menino não saía do lugar (nem João, nem Maria). O farol abriu, o carro (ou pedestre) da frente andou, o de trás buzinou (reclamou, praguejou). José assustado e sem tempo, seguiu seu caminho sem olhar para trás (ou olhando, tanto faz). O menino ainda chorava aos berros, como quem gritasse para o mundo: “Onde é que foi parar a minha infância?!” (“..a minha ingenuidade?!”, “…as brincadeiras?!”, “o meu ursinho de pelúcia?! Cadê?!!”). João e Maria, depois de comer, foram pra casa (pro apartamento, casa da sogra, algum lugar com teto e leite quente) e o menino ainda chorou muito (chorou demais) pra ver se a dor escorria e ia embora com as lágrimas. João e Maria (o menino também) adormeceram e sonharam (todos sonhamos, mesmo que não lembremos no dia seguinte).

Sim, Cidade de Deus é uma realidade que está na favela (nos semáforos, debaixo dos viadutos, na porta da sua casa pedindo “alguma coisa pra dar”). Está espalhada por todos os cantos, fincada no solo dessa terra de ninguém.

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8 Comentários on "(Es) Colha"

  • E essa realidade a gente não quer ver (ou ouvir, ou tomar conhecimento, ou sentir).

    Parabéns pelo texto (ou crônica, ou desabafo)!

  • Felipe diz

    Muito bem escrito seu texto, porém achei meio piegas…

  • Camila Rodrigues de Souza diz

    Li em casa (mas poderia ter sido no trabalho, na faculdade, não faz diferença)a sua crônica (ou texto, ou redação, tanto faz…)e gostei muito (amei, adorei, curti pra caramba!!!)

    …de Camila (Mila, Cá, Milinha, você, psiu)

  • Thalita diz

    Nossa….mto trsite sue texto…mas é a realidade….issu foi um desabafo(ou coisa q estava na sua mente..sei lá..,tantu faz)??Mas adorei…..apesar d ser meio trsite….

  • Renata,

    Amei esta sua crônica, sempre admirei o seu jeito de ensinar; porém não sabia que além de excelente professora, super amiga, conselheira literária é escritora. E com essa crônica nos remete a nossa cruel e triste realidade.

    Lendo-a me lembrei do Livro “ERAoDITO”, bem que você poderia entrar em contato com o Marcelino Freire e sugerir para ele publicar jun to com o próximo livro, ele iria amar.

    Beijos,

    Caio Cabral

  • Renato Dias Müller diz

    Eu adorei essa crônica é uma crônica bem inteligente bem criativa .

  • Mel diz

    Eh dificil acreditar q infelizmente essa eh a realidade, é duro vc ler uma crônica dessas e ver q o mundo está assim e indo p/ pior cada vez +…

    E pessoas fazem mto pouco p/ melhorar

    enfim…

    eh triste, mas mto direta e crítica…

  • Beatriz Elieuza diz

    Achei super legal!!!

    Assim que possível outras.

    Beatriz

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