O Outro Lado da Rua

Fazia sol do outro lado da rua e ele continuava ali, preso, no frio, respirando o ar congelante, no meio fio da vida, andando numa linha reta, paralela a escuridão.

O barulho das máquinas o ensurdecia. A luz verde o deixava cego. Os sons dissonantes, marteladas ininterruptas, uma gota de água pingava incessantemente em sua cabeça. Ele ia ficando louco. E perdido. E louco, e cego, e mudo às palavras bonitas da vida, e paraplégico para os campos de flores, e aleijado para os abraços carinhosos, e solitário.

Estava trancado em uma caixa fria, na contramão das emoções. A ele restava apenas a infeliz tarefa de observar o mundo, apenas olhar, nunca tocar, através das pequenas gretinhas da armação de papelão.

Trancado em uma cela, encarcerado em seus medos, asfixiado por suas esperanças, ele via o dia passar. E o dia passava e chegava outro igualmente cinza, e outro um pouco mais negro, e nada mais fazia diferença.
O frio púrpura mantinha seus dedos sempre no mesmo ato incessante. Batia na mesma tecla sem parar, e o barulho que fazia só deixava-o mais infeliz.

Olhava para o outro lado, perto, porém inalcançável. Um céu azul, um carpete verde, o barulho da água correndo, alguém que canta. Mas isso era apenas ilusão. Estava preso, entocado, guardado, encurralado em um corredor cinza, apenas a espera da morte, de algo que o levasse, que trouxesse a felicidade e colocasse um ponto final em seu parágrafo.

De todas as tristezas, ele tinha certeza apenas de uma coisa. O Inferno era frio, e não prendia ninguém. Estava ali porque queria, preso por algemas de medo, amarrado com cordas de insegurança, e sua falta de confiança pesava como bolas de aço.

Andava torto e manco pelos cantos escuros esperando encontrar um lugar para se esconder. Pensava forte e perdia, e um dia caiu tão fundo que não podia mais subir. Mas isso não o incomodava. Porque agora o ar que respirava era claro, era leve, era fino, e seu corpo agora era quente, e seus cabelos eram soltos, e estava coberto por um cobertor verde e macio, e uma luz forte o encorajava e aquecia, enquanto uma voz doce embalava-o num sono de paz, alegria, e enfim, eterno.

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