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Sexta-feira (hoje é dia) - (02-11-2002) - por Vanderlei da Bahia

Estava ele sentado na mesma mesa, olhando a mesma tela que olhara ontem. Sua barriga já topava no móvel que sustentava o teclado em que seus dedos de ponta chapa pulavam. Saltavam como se fossem programados para tal; enquanto isso acontecia, sem perceber, seu pensamento avaliava: Será que está correto o que estou fazendo? Será que a lei permite ou será que há uma brecha para dizer que ela permite?

Era Sexta, todos já sabíamos que “hoje é dia”. Seus poucos cabelos, que ainda serviam para dizer que estava preocupado quando os coçava, já estavam entrelaçados; hoje começou cedo, quando ainda não havia chegado ninguém que o observava.
Seu chefe “zen” quase deixou de ser assim apelidado. Houve um “pega pra capá” e a coisa estava preta. Era a ordem versus a legalidade e parece-me que a ordem estava intransigente.

Do seu pequeno mundo administrativo e do alto de seu conhecimento adquirido olhou um outro companheiro que estava seguindo o mesmo rumo; chegaria aos poucos cabelos, coçaria a cabeça, seria amigo do mouse, teclado e monitor e admiraria a rede apesar de falar mal dela. Levantou, pegou o lápis que estava sobre a mesa e se dirigiu à mesa do seu companheiro. Tentou acompanhar seu raciocínio e lógica do sistema que ele manipulava. Decidiu não se meter, pensou em retrair, sua cabeça o questionou: O que fazes aí? Por que não está trabalhando? Vamos, para o trabalho já!
Era o momento de puxar uma reflexão, parece que não queria deixar seu companheiro no mesmo caminho. Puxou uma cadeira, sentou-se e mostrou a ponta do lápis. Apoderou-se de um estilete e com a ponta do pé deslizou o lixeiro onde colocaria as farpas que iriam pular ao apontar o lápis.

O companheiro que estava se encaminhando para o mesmo rumo que ele e seria salvo naquele momento, era eu. Com cuidado apontava o lápis e contava a história de uma professora que o havia ensinado “como apontar um lápis de verdade” e como usa-lo como se fosse uma ferramenta de produzir arte.

- Tem que ter a ponta longa e arredondada, para deslizar na folha e poder desenhar cada letra como se fosse a última letra a escrever.
- É estamos perdendo para o ritmo.
- E não é? Estou imaginando como será o futuro de nossa crianças, não sabem usar nem a magia do lápis. Vejo pelos meus filhos, a beleza, o sentimento, nada mais tem importância.

Não pude ficar alarmado e prestar atenção direito no que ouvira, porque estava intermitentemente apertando as teclas do meu mundinho administrativo. Após sua saída, que foi da mesma forma que a chegada (meio sem querer), percebi que eu também não olhava mais e não esculpia a ponta de meu lápis como se fosse prepará-lo para mudar o mundo, aliás, acho que faz tempo que não o uso mais.



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Juliana - juliana.k@terra.com.br • 26-11-2002 07:18

Ôpa, vou ser a primeira a comentar?

Pois é Vanderlei, outro dia mesmo vi uma reportagem (não sei em qual telejornal, minha memória anda péssima) sobre como a utilização do mouse e dos teclados tem afetado a educação das crianças que nasceram nessa era da internet. Os professores estavam reclamando que de tanto utilizar os teclados nas lições e nos “chats”, as crianças estavam desaprendendo a escrever; pior, estavam levando as expressões e abreviaturas utilizadas nos bate-papos para as redações em sala de aula!!! Isso sim é triste!!

volponi - link - volponi@cronistasreunidos.com.br • 27-11-2002 09:37

Apontar os lápis de nossas vidas, é disso de que o mundo precisa.

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