Baratas

Na calada da noite, minha pequena casa silenciosa abriga o discreto sono de seus moradores. Contudo, sempre sou de oposição – e, dessa maneira, nunca durmo cedo em dois dias seguidos…

Tento buscar o chamado sono dos justos ouvindo Thelonious Monk e, é claro, estou consciente da heresia que acabo de dizer, pois sei que Monk é para ser ouvido de pé – mas o jazz sempre me acalma. Neste ambiente, a fome me atormenta e preciso ir à cozinha. ..

São poucos passos até a busca do sanduíche final, a ser preparado com quaisquer iguarias disponíveis na geladeira e arredores, envoltas num suculento pão árabe (nada se compara em termos de pão árabe ao El Gebal da Buenos Aires). E, quando os trabalhos teriam início, ouço um “trheecsh” vindo da lixeirinha. Faço a busca e encontro uma ardilosa…barata. Eu sei que muitos detestam esse animal e o consideram irresistivelmente desagradável (há meninas que possuem verdadeiro horror ao inseto). Se você é um(a) deles(as), é o momento de deletar esse texto, embora o que eu tente dizer pouco tenha a ver com o mundo baraticida, por mais estranho que possa parecer.

Retornando, eis meu encontro com a indefectível barata. O silêncio nos arredores, o sono de minha querida família, o piano de Monk ao fundo, e aquele ser impassível, imóvel, esperando que eu seja um “zé mané” e deixe-a lanchar pequenas sobras dentro de uma minilata. Os segundos demoram eternidades com algoz e vítima frente a frente, ainda que não esteja claramente definido sobre quem é quem. Qualquer que fosse o porte dela, continuaria sendo pequeno perante o meu, mas posso adiantar que era de estatura média, intermediária, alguns degraus antes de se tornar uma “marombeira”, “barbie” ou coisa que o valha.

Quando ainda era um jovem conscrito do Exército Brasileiro, onde fiz a chamada “adaptação” em 45 dias e levei 13 meses para ser dispensado (há coisas que só acontecem comigo e com cada um de nós..), era sempre obrigado a matar baratas com as mãos. Acho que, de acordo com o rígido código militar, exterminá-las com tapas era considerado algo importante para a formação psicológica de cada um dos futuros soldados.

Também desconfio que havia uma supercolônia das baratas no Forte de Copacabana, treinada e disciplinada para a morte em combates dentro do quartel, porque diariamente surgiam situações perto de tenentes, capitães e coronéis que se esfalfavam em assassiná-las para, em seguida, destacar recrutas para a mesma finalidade. Nunca entendi isso muito bem, mas era assim que funcionava, como várias outras coisas no mundo. Talvez, por isso, sempre que elas surgem, faço o “serviço” (conforme o jargão policial) com certo constrangimento. Uso os artefatos tradicionais (chinelo, vassoura, jornal, etc), entendo o incômodo que uma barata traz pra uma casa, ajo de maneira rápida. Mas isto me faz sempre pensar. Primeiro, porque assassinato ao vivo é sempre desagradável. Melhor dizendo, qualquer assassinato é lamentável, mas todos acabamos praticando isso diariamente, de alguma forma. Segundo, porque a barata, em geral, é um ser oprimido. Irracional e, por isso mesmo, muito próxima do ser humano – mais perto ainda do ser brasileiro, que facilmente é visto em todas as nossas metrópoles. Esgueirando-se pelos cantos, de maneira cabisbaixa, buscando sobras em restos urbanos, encontrando a rejeição e a ojeriza de todos os que se encontram em estabelecimentos garbosos. Correndo atemorizada dos grosseiros pés intencionalmente dirigidos para esmagá-la, tripudiá-la, destrui-la.

E lá estamos num silêncio inconteste, um silêncio que serve de amém. Continuam os segundos intermináveis. Ela desiste de remoer o pequeno lixo, e fica imóvel, indefesa. Penso em eliminá-la antes que minha mãe acorde na madrugada e se horrorize com o repugnante bicho. Mas também penso em sua vida breve como ser rasteiro que se esgueira em busca de uma vida digna com um pouquinho de comida, em sua luta pra se esconder num canto fugindo de chinelos e inseticidas mortíferos. E, já que não tem jeito, acabo fazendo uma associação de pensamento com os pobres brasileiros que, durante o rush das grandes cidades, vivem de comer e juntar lixo pra revendas, tratados que são pela sociedade como meras baratas. Só que não é fácil eliminar estes seres com chinelada – o inseticida natural já vem das desigualdades entre os homens, que lhes impingem àquela vida sofrida.

Dessa vez não há crime de minha parte. Amarro o lixo num saco de supermercado e vou à lixeira fazer uma despedida.

A barata vai viver mais um tempo, é normalmente safa, está com boas reservas de alimento. Eu deixo de ser assassino por um dia. Lavo minhas mãos, volto para o trabalho com o sanduíche. Vou lanchar ouvindo a genialidade de Monk. Mas continuo infeliz porque tudo o que realmente queria, no meu subconsciente, era evitar que as pessoas que vivem do lixo no Brasil e no mundo fossem tratadas como baratas, esgueirando-se da sociedade e em busca de uma sobrevivência digna. Mas sou fraco demais para mudar tudo, e quem pode não tem o mínimo interesse sobre isso. Por mais repugnante que seja, até uma barata merece respeito. Por que o homem não?

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3 Comentários on "Baratas"

  • Juliana K. diz

    Só é fraco quem quer, todos podemos ajudar … aquela velha frase, “se cada um fizer a sua parte…”

    Bom texto.

  • Rafael diz

    Bom texto, mas esse lance de esmagar baratas com os dedos…..urg! Não tá com nada.

  • malena diz

    odeio baratas. mas o texto faz muito sentido.

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