O Velho da Filosofia

Havia acabado a primeira parte da aula e desci para tomar um café. Chegando no bar me decidi por uma coca e fui tomá-la na companhia do sol. Fazia calor, embora ventasse, estava um belo dia. Enconstei-me no muro, sozinho como sempre, e comecei a tomar meu refrigerante enquanto observava as pessoas passando. Vi algumas garotas lindas, outras nem tanto assim e um cara velho e mal vestido que olhava para mim. Desviei meu olhar para a escada ao meu lado e jovens felizes conversavam empolgados sobre alguma coisa. Voltei minha cabeça novamente na direção do velho e pude ver que ele se aproximava.

– Será que você poderia me arranjar cinqüenta centavos para eu tomar cerveja?- perguntou o velho – é que tenho apenas cinqüenta.

Não sei muito bem porque, mas eu disse:
– Claro, deixe ver se eu encontro algum trocado.

Enquanto procurava em meu bolso o velho se encostou no muro ao meu lado; arranjei algumas moedas e dei uma espiada, eram três moedas de cinco centavos e uma de dez; voltei a procurar, no outro bolso dessa vez, e enquanto isso o velho começou a falar:

– Sabe, eu não sei onde nós vamos parar. As coisas não andam nada bem por aqui, esse governo não está tratando as coisas com a devida seriedade. Eles pensam que nós somos palhaços.

O velho era um sujeito mal vestido, com a barba por fazer e os dentes mal cuidados. Ele cheirava a álcool e estava claramente bêbado. Falava muito baixo.

– E o Fernando? Você viu como ele está mudado? Não é mais o mesmo que conhecemos – dizia o velho como se eu o conhecesse há anos, e nós ao Fernando Henrique – e tudo que ele acreditava? E seus ideais?

Era espantoso, apesar da aparência de mendigo, aquele cara falava corretamente e sabia se expressar, parecia ser instruído e falava de assuntos atuais. Eu não encontrara mais nenhuma moeda em meus bolsos e recorri então à minha carteira, onde encontrei uma nota de um real e dei a ele. Eu não me sentia dando uma esmola, assim como não podia me sentir emprestando dinheiro, pois sabia que não o teria de volta. Não sei se estava daquela forma querendo apenas me livrar dele ou simplesmente em um dia de bondade, apesar de não saber se fazia bem ou mal em lhe dar o dinheiro, e pra ser sincero, eu nem pensei nisso, simplesmente dei a grana pro cara, sem saber muito bem porque. E ele continuava a falar:

– Eu sou fotógrafo – respondia ele a uma pergunta que não havia sido feita – faço uns trabalhos por aí. O que é que você tem lido?
– Ultimamente tenho lido Rousseau e Hume, aqui pra faculdade – respondi timidamente.
– Você faz o quê? – me perguntou.
– Filosofia.
– Qual professor você está gostando mais?
– Maria das Graças – respondi.
– Ah – murmurou ele como se recordasse de um anjo – eu gosto da Marilena Chauí.
– Eu não a conheço. É que estou no primeiro semestre.
– Ah, começou agora, filosofia é muito difícil. Quer dizer, não é muito difícil, é apenas trabalhoso e eu sou muito preguiçoso. Tem que ficar pensando, pensando . . . eu tenho preguiça.
– Eu também sou preguiçoso – respondi sendo sincero, mas sem estar muito interessado na conversa.

Foi então que ele retornou ao assunto de política e também se deu a liberdade de falar algumas besteiras, o que me tranqüilizou, pois era exatamente isso que eu esperava de um bêbado mal vestido. Porém, o que eu vira até ali era uma conversa entre dois estudantes, só que um com vinte e um anos de idade e o outro, por volta de cinqüenta.

– E essas alianças do Fernando Henrique, o que ele pretende com isso? – começou o velho – Você acha que a Dona Ruth vai agüentar? E você acha que ele vai querer continuar com ela? Vai nada, ele vai querer é menininha novinha, o que ele quer é ninfetas.

Durante toda a conversa, eu mantinha meus olhos adiante, olhando as pessoas passando e as duas meninas sentadas no banco da frente que, estranhando o fato de eu estar conversando com um bêbado, não paravam de me olhar. Porém, nessa parte do nosso diálogo, eu olhei intrigado para ele, sem saber o que ele quis dizer com aquilo. Teria ele feito alguma metáfora que a minha simples mente não entendeu, ou estava apenas me sacaneando ao perceber que não estava dando a mínima pro que falava. O fato é que ele deixou de lado aquele assunto das possíveis escolhas sexuais do presidente da mesma forma em que entrou nele.

– O Chiquinho é um cara bacana, esse eu respeito, e muito, continua íntegro. Mas o Fernando, de que maneira posso respeitá-lo. A gente andava aqui por esses corredores, os três estavam sempre juntos, eu sabia o que eles pensavam. E o Fernando Henrique é um traidor.

Estaria ele querendo dizer que fora amigo do presidente na época em que este estudou na USP? Estávamos no prédio de Filosofia e Ciências Sociais, onde estudou e deu aulas Fernando Henrique, mas acredito que naquela época o curso se dava em outro lugar. Já não sabia se ia embora e deixava aquele velho falando sozinho, ou se prestava mais atenção no que ele dizia. Não que tivesse acreditado naquela história, apesar de não ser completamente inverossímel, mas de repente achei que aquilo poderia ser interessante, além do mais, não tinha nada melhor pra fazer, e ninguém com quem conversar.

– E o Lula – continuou o velho – saiu de São Bernardo. Acho que ele nunca deveria ter saído do sindicato dos metalúrgicos. O que você acha disso?
– O que eu acho do Lula? – perguntei surpreso por ter pedido a minha opinião.
– Não, o que você acha de tudo isso?
– Bem… – percebi o quanto aquele velho bêbado tinha mais a dizer do que eu – eu acho que uma vez dentro da política, é normal que você acabe mudando e não tem muito como ficar fiel ao seus princípios, mesmo porque, estes vão se alterando.
– Entendo, – respondeu de forma pensativa o velho, como se eu tivesse dito coisa com coisa – você está falando dos caminhos inevitáveis do nosso sistema político, econômico, social . . .
– Isso mesmo – respondi sem entender nem mesmo o que tinha dito.
– Você faz um som, não é verdade? – me perguntou o velho.
– Já fiz, – respondi – mas não toco mais.
– É engraçado essa coisa. Você pode estar aqui no Brasil, na China ou no Nepal. Se você vir um artista andando na rua, você aponta e diz: “ali vai um artista”. E não tem como errar.
– Não é bem assim.
– Mas é legal isso, essa integração. Parece egoísmo, mas não é, os artistas procuram se ajudar e isso é muito bom. Sabe, eu também sou escritor. Escrevo algumas coisas.

Senti que a conversa já tinha dado o que tinha que dar. Comecei a me encher de todo aquele papo. Principalmente por não saber se levava em consideração ou não o que o bêbado dizia. Foi então que me virei pro velho e disse que teria que ir andando, pois minha aula iria começar. Ele me agradeceu pelo dinheiro e disse:

– Vamos fazer um som um dia desses… eu trago o violão.

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2 Comentários on "O Velho da Filosofia"

  • Juliana K. diz

    Que coisa, o Fernandinho, quem diria!!

    Muito bom!

  • oi

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