Amigos ad eternum

Tem gente que pode pensar que isso é apenas um desabafo de alguém que agora vende cachorro quente no cepê ou água de coco na praia. Pô, o que há de errado nisso? Por fim, entendam como quiserem, é uma crônica e ponto final.

Certa vez estava me lembrando de encontros com velhos amigos. Depois daqueles apertos de mãos e abraços calorosos a pergunta que não quer calar, Trabalho. Você se esforça para não cair no assunto esquivando-se para um básico e íntimo “tem visto o povo?”. Melhor seria se conhecesse o mínimo da vida pessoal e perguntar da namorada, paquera, bem pelo menos aquela que ainda era em 19.. e veja bem, já faz um tempo. Melhor ainda se terminou o relacionamento, você alonga sua estratégica retirada com aquela pseudocompaixão, muito sorriso amarelo e tapinhas nas costas. Abraços. Tchau. Não, nem tente recorrer a “Como vai o Beto? E o Serjão?” que vai levar um “O Serjão tá bem abriu uma empresa sozinho e agora é microempresário.” na cabeça.

Infelizmente, encontros com velhos amigos não são assim tão amistosos.

– Trabalha…?
– Sim.
– Quero dizer, onde você trabalha?
– Ah, numa editora.
– Que editora?
– Ah, uma de livros científicos você não vai saber.
– Fala que eu te surpreendo.
– Não, não. São livros médicos você não vai saber mesmo.
– Tenho um cunhado que é médico, quem sabe…
– (Não vem ao caso, um nome qualquer)
– Ah…

Existem os que estão melhor que você…
– Cara, tô trabalhando como vice-presidente diretor executivo da Ultrasoft
– Bom!
– Meu, o trabalho lá é barra! Todo dia às cinco tô pegando no batente, só saio depois da uma!
– Barra.
– Pelo menos vou garantindo o meu futuro.
– Graças a Deus!

Existem os que estão pior, não seja vingativo…
– …
– É.

Um acena a cabeça para o outro e se despedem com abraços calorosos e apertos de mão. Prometem que se verão em breve etc.

Mas o pior de todos os tipos…

– Cara, a situação do país tá difícil, o Lula ganhou, a gasolina só sobe, o dólar não desce e, quem sabe, seremos enviados como FEB rumo ao Iraque. A Maria me largou, fugiu com meu primo e desde então tô numa pior. Bebo, bebo, bebo e nada de alegria é só ressaca, direto. Bati o carro e esqueci de pagar o seguro. Meu pai me deserdou, descobriu que não sou filho dele. Outro dia na fila do ônibus fui abordado porque algum patife parou a BMW perto de mais do ponto, só porque estava em frente ao carro fui seqüestrado. Claro que eu não tinha dinheiro me surraram e me enviaram direto pro PS. No hospital pensaram que eu fosse um indigente e não quiseram me atender.

– Trabalha…?

Compartilhe!

4 Comentários on "Amigos ad eternum"

  • Rafa diz

    Putz essas conversas são terríveis mesmo, Jean.

  • Jean, ond evocê trabalha mesmo? hehehe.

  • everton cruz diz

    Muito legal, já passei por isto algumas vezes é terrível; procurava alguém pior do que eu pra comentar, e só me encontrava. Bom demais. Continue assim.

  • malena diz

    óteeeeeeeeeemo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *