Bichinho “Daqueles”

Numa dessas madrugadas da vida, havia começado a escrever apenas para chamar o sono, quando senti uma coceirinha na perna. Cocei. Percebi que algo caíra ao chão. Olhando, de imediato reconheci o minúsculo vivente, ainda a se recuperar da queda. Inofensivo, um simples bichinho. Daqueles.

Não tenho a pretensão de que faça alguma idéia do inseto ao qual me refiro, a não ser que seja meu irmão. Pois um bichinho ‘daqueles’ é nada menos do que um daqueles serzinhos alados aos quais perseguíamos avidamente – há décadas atrás – e prendíamos em seguida num recipiente qualquer. Finda nossa atividade, os soltávamos, ainda com vida.

Eram encontrados aos montes, às beiras dos brejos ou arredores de matagais. Em popularidade, só perdiam para os desengonçados bitus. Estes, de pouquíssima personalidade, se permitiam ser ‘desbundados’, ferventados, fritos e enfarinhados. De tanto tentar agradar, acabavam virando tira-gosto.

Com os bichinhos ‘daqueles’ a coisa era diferente: chamavam-nos a atenção pelo brilho das asas, pelo içar vôo, pela simplicidade ímpar. Mantinham sua postura, causando-nos verdadeiro encanto.

Deste modo recordavam-nos de que cada ser humano é, apesar de todos os outros, único a seu próprio modo. Pois quando duas pessoas se relacionam mais de perto, surge sempre um certo vínculo, quase um código. Com o tempo, criam um vocabulário particular, tornando-se capazes de despachar uma visita incômoda, rir de si mesmos e dos outros sem que ninguém mais o perceba. Escolhem seus mútuos apelidos a dedo, sendo identificados pela simples pronúncia do nome. Eu mesmo conheço uma ‘Magrela’, um ‘Ósso’ e um ‘Perigo’, exemplos concretos deste rol. Geralmente, peculiaridades assim já bastam para identificar a parceria, como o famoso ra do Patrick Swayze e seu famoso ‘Idem’ no filme ‘Ghost’?)

Um bichinho ‘daqueles’ é, antes de tudo, um anônimo. Nunca figurou em livros de Ciências – nem sequer foi identificado com um nome em Latim! Nem sei se tem família. Tivessem os garotos da época lhe inventado um nome de batismo, ou biólogos mais detalhistas divulgado seu verdadeiro nome, teria sido relegado ao lugar-comum. Mas o destino lhe reservara tarefa maior: eternamente anônimo, um bichinho ‘daqueles’ transcende épocas e distâncias.

Fico a pensar: será que o bichinho ‘daqueles’ não nos pertence – ao menos com esse nome – ou se em algum outro lugar, dois outros irmãos (dois bons amigos, talvez) não tiveram a mesma idéia. Se nos encontrássemos, poderíamos finalmente fundar a APOBIDA – Associação de Proteção aos Bichinhos Daqueles!

Pois dentre as muitas escolhas que a vida nos oferece, se me fosse possível optar por outro destino que não o humano, já teria me decidido: queria ser um bichinho mesmo. Daqueles.

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2 Comentários on "Bichinho “Daqueles”"

  • Charlles. Gostei da crônica. Antes ser um bichinho daqueles do que uma barata. Kafaka que me perdoe.

  • Rafa diz

    Charlles. Achei muito bacana a simplicidade do assunto e a fluidez do seu texto. Tem coisa muito boa aí. Continue sempre.

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