Sai

– Sai.
– Ããhh?
– Sai. Sai agora.
– Como assim? Sair do carro?
– Não. Sair do planeta. Lógico que é sair do carro!
– Cê tá brincando, né? Eu não vou sair do carro.
– Sai agora, ou eu te empurro pra fora.
– Você não teria coragem!
– Tá, te empurrar eu não empurro, mas então vamos ficar parados aqui. Até você sair.
– Eu não vou sair aqui, no meio do nada, só porque você tá tendo um ataque de ciúmes!
– Não é ataque de ciúmes. Pelo contrário. É um ataque de lucidez. Pela primeira vez na minha vida, na nossa vida juntos, eu tô vendo a sua verdadeira face.
– Ai, não começa, vai…
– Não estou começando, estou terminando. Sai. Anda logo.
– Eu tô começando a ficar irritada. Dá pra fazer o favor de dar partida nesse carro? Eu não quero ficar parada aqui no ………..
– Não! Eu não acredito! Você não vai atender o celular agora, vai?
– Qual o problema?
– O que pode ser mais importante pra você do que essa conversa que a gente tá tendo agora? Me diz!
– Conversa? Conversa? Você tá me enxotando do seu carro e ainda chama isso de conversa?
– Deixa tocar.
– …
– …
– Olha, eu não agüento, deixa eu atender, qual o problema nisso?
– Se você atender, quem sai do carro sou eu.
– Mas a gente não tá nem conversando. É idiotice ficar em silêncio, escutando o telefone tocar, sem poder atender.
– Idiotice é você se recusar a sair do carro.
– Esse é o seu problema, sabia? Você vê problema em tudo, nunca tá satisfeito com nada…
– Com nada não! Estou satisfeito com muitas coisas na minha vida. Só não estou satisfeito com você!
– Como o que, por exemplo?
– Meu trabalho. Meu time de futebol. Meu carro…
– Ah, pelo amor de Deus! futebol? Carro? Você só se preocupa com essas coisas pequenas. Quer saber? Você enche o saco às vezes!
– Tá, agora eu é que sou o vilão da história. Eu devo merecer mesmo. Deve ser algum castigo.
– Deve. Deve ser castigo mesmo. Deve ser falta de te castigarem quando você era criança. Aí cresceu e virou esse bobalhão mimado que é agora.
– …
– Você devia me agradecer. Me agradecer por relevar essas suas maluquices e por continuar contigo depois dessas crises de auto-estima.
– A minha auto-estima é muito alta, se você quer saber…
– Tô vendo. Altíssima. Tava quase me atirando pra fora do carro por causa de uma coisa que nem sabe se aconteceu realmente.
– …
– Vai ficar aí, calado, igual um pastel, sem falar nada?
– …
– Chega! Tá satisfeito agora? Pois fique sabendo que, quem quer sair do carro agora sou eu….
– Pára, não faz isso. Fecha a porta, vai.
– Tchau! E nem precisa me ligar. Gostei desse lance de não atender o celular…
– Peraí, pára com isso! Entra no carro. Volta aqui, eu não vou te deixar aqui sozinha! Volta aqui! Merda….

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3 Comentários on "Sai"

  • Rafa diz

    Espero que nada disso tenha um fundo de verdade. Seria triste.

  • everton cruz diz

    Gostei muito do texto, parece que realmente estamos vendo toda a cena. Poderia ir mais longe. Deu-me vontade de ler mais, saber sobre o casal. Gostei!!!!

  • gostei muito… engraçado e verossímil..

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