Sábado à Noite, Lapa

Recomendo um estado de suave calibre ao entrar nos domínios do planeta Lapa. Encarar aquele esparramo de diversidade de cara limpa pode assustar visitantes desavisados. O velho bairro boêmio carioca abriga músicos, poetas, velhos e novos hipies, playboys, bandidos, pintores, vagabundos, rastas, traficantes, políticos, prostitutas, jornalistas, travestis, humoristas, velhos e novos malandros, djs, rapers, sambistas, hip hopers, biriteiros de todas as laias e bagaceiros de todas as linhagens. O melhor é que toda essa fauna está misturada, não se divide em tribos. Ali, o sincretismo da alma carioca acontece plenamente. É o melhor e o pior da geléia geral brasileira.

Meu amigo santista Nico Lessa, que me acompanha nesta expedição airada, não conhece o bairro e está em estado de graça. O combinado é esperar nosso amigo Fausto Gomes num pico chamado Nova Capela (famoso boteco de que voltarei a falar), na rua Mem de Sá, artéria principal do bairro. Acontece que fomos tragados, feito ímãs, para a suntuosidade dos tricentenários Arcos e acabamos por cair nas quebradas que o circundam. Beira as 23 horas e a noite da Lapa só está começando.

No antigo Beco da Alegria, da sacada de um dos sobrados, fico esperando a saída e o aceno de Portinari, que tinha ali seu ateliê. Ou a aparição de Manuel Bandeira, que sempre morou na área.

No meio da barafunda sonora que sai das casas e toma as ruas (vai de samba de gafieira e choro a techno, regge e hip hop), lembro-me do imperdível livrinho Lapa, um levantamento do jornalista Moacyr Andrade sobre o bairro. Moacyr abre o livro falando de uma noite nos anos 20, em que Manuel Bandeira e Zeca Patrocínio (filho de José do Patrocínio, o “Tigre da Abolição”) presenciaram um dos mais fantásticos concertos de violão brasileiro da História. E também o mais secreto. Deu-se num rendez-vous da Rua do Riachuelo, talvez o bordel da cafetina Elvira, e, de mão em mão, o violão passou pelo lendário Jaime Ovalle (autor de Azulão), o até hoje cultuado João Pernambuco, o esperto Catulo da Paixão Cearense e, por fim, Villa-Lobos. Como platéia, apenas os dois citados e algumas “belezas venais”, na definição de Bandeira. E, se vocês querem saber o que Villa-Lobos estava fazendo ali, saibam que, de todos, sua presença era a menos surpreendente: era habitué do piano e das almofadas de cetim do bordel.

Na travessa da Mosqueira, próximo a Sala Cecília Meireles, topamos com o Cosmopolita. O legendário boteco, fundado em 1926, como mostra o letreiro no espelho, acima da prateleira de bebidas, viveu sua época de ouro nos anos 40 e chegou a ser o “escritório” do grande sambista Ismael Silva. Num rápido papo com o portuga Maneco, dono da casa, fico sabendo que, na era Vargas, um dos mais assíduos frequentadores do botequim era o famoso chanceler Oswaldo Aranha. Um certo dia, Aranha, faminto, pediu um filé alto, forrado de alho e acompanhado de batatas portuguesas. Nascia ali o célebre filé à Oswaldo Aranha, presente no cardápio de nove entre dez bares e restaurantes do Rio.

Enxugamos alguns chopes muito bem tirados – acompanhados de uma porção de um dos melhores bolinhos de bacalhau que já comi – e seguimos nossa jornada.

A moringa fervilha tentando buscar tudo que já se escreveu sobre a Lapa em prosa, poesia e música. De Mário Lago a Seu Jorge, passando por Noel, indo até Aldir Blanc, voltando à Bandeira, Wilson Batista, Macalé, Moringueira. Zriguidum, oba! E Sérgio Buarque de Holanda, Bororo, Orestes Barbosa, Lucio Rangel, os poetas Dante Milano e Raul de Leoni, o malandro Camisa Preta, as prostitutas Beatriz Cabeludinha e Alice Cavalo-de-Pau. Ziriguidum…

Lá está a igreja Nossa Senhora da Lapa do Desterro, de 1751, mantendo-se intacta entre as criminosas adulterações urbanas. A rua Joaquim Silva fervilha de sons e gente. Uma roda de samba compete com uma miserável banda de reggae. Entro num sobrado atraído por um regional de meninas e rapazes que cantam em vozes afinadas o samba Escurinho, de Geraldo Pereira. Pergunto ao mestre de cerimônias da casa se a entrada é paga. O negão, malandríssimo, manda: “a entrada não, major. Só a saída.” Juro que vou dar de cara com o próprio Geraldo Pereira abraçado à seu desafeto Madame Satã quando um sensato Nico me chama à real, lembrando que nosso amigo Fausto deve estar careca de esperar no Nova Capela.

O cardápio informa, abaixo do nome: “casa tradicional onde se toma o bom chop e incomparáveis vinhos”. O Capela existe desde 1903. O Nova do nome deve-se a mudança do estabelecimento, em 1967, do Largo da Lapa para a rua Mem de Sá, onde funcionava um Banco (o banheiro feminino ocupa o lugar do cofre!). Para um bar/restaurante encravado em pleno bas fond da Lapa, o Nova Capela até que apresenta uma atmosfera tranqüila. No salão refrigerado reina a mistura de estilos, classes sociais e faixas etárias. O prato que faz a fama da casa é o cabrito assado com brócolis. Mas optamos por uma farta e correta pescada inteira com batatas cozidas.O chopp, gelado e bem tirado, na caldereta, nos cunduz à mais genuína conversa fiada até alta madrugada.

Vou pagar a conta no caixa e, na parede, ao lado de um São Jorge, vejo o retrato de uma linda mulata com faixa de miss. Pergunto ao Ramon, dono do estabelecimento, quem é a beldade. Com os olhos marejados, o galego conta que trata-se de Esmeralda, a madrinha do Capela. “Quase que acaba com a minha vida, essa cachorra”, diz o cara. Chama dois garçons como testemunhas e continua: “Foi a rainha da Lapa nos anos sessenta e setenta. Dava pra mim e pra esses dois malandros aí. Viviamos todos felizes”. Olho incrédulo para os dois garçons que confirmam a história balançando positiva e respeitosamente as cabeças. “Até que, há uns cinco anos, apareceu por aqui um tal conde suéco, milionário, e levou nossa Esmeralda, que nunca mais voltou.” E aí, com voz embargada, arremata : “Mas nós ainda a amamos e, eu sei, um dia ela volta”.

Ébrio de chopp e extasiado com a história de amor do Ramon, deixo a Lapa com um samba de Noel tocando no coco:

Foi num cabaré da Lapa que eu conheci você. Fumando cigarro, entornando champanhe no seu soireé. Dançamos um samba, trocamos um tango por uma por uma palestra …

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3 Comentários on "Sábado à Noite, Lapa"

  • Paula diz

    Nossa! Morro de vontade de conhecer a Lapa! Agora mais ainda!

  • diana diz

    amo a malamdragem e historias espirituais

  • diana diz

    amo historias espirituais

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