Síndrome de Clouseau

Há momentos na vida que merecem ser lembrados, e há um monte de outros que poderíamos esquecer sem problemas, muito obrigado.

O que vou relatar a seguir é evidentemente uma situação do segundo tipo, e se estou transcrevendo-a para a prosperidade, como estou, acho que apenas confirmo que sou o tipo de pessoa que passa por situações assim, em primeiro lugar.

Antes de começar, gostaria que mantivessem em mente algumas palavras-chave, para apreciar melhor a narrativa. São elas: “Arquimedes”, “morsa”, e “banana”.

Certo, vamos lá. Para quem não me conhece, sou um animador 3d. Isso significa que programadores e outros técnicos me consideram um artista sem valor, e animadores 2d e outros artistas me consideram um técnico sem valor – o que é ótimo para fortalecer o caráter, espero.

Também sou um freelancer , que é o mesmo que dizer que se eu ficar dois, três meses no máximo sem um trabalho, vocês provavelmente vão me encontrar na esquina da avenida Brasil fazendo malabarismo com filhotes de animais em troca de grana. Ou, vocês conhecem o tipo, fazendo ameaças sinistras dentro de ônibus: “Olá. Estou desempregado. Eu podia estar por aí roubando/matando/traficando/estuprando mas estou AQUIIII…”.

Bem, de qualquer modo, por ser animador 3d freelancer, gosto de frequentar lugares onde posso encontrar outros nessa mesma triste condição. E não há melhor lugar para isso que o Anima Mundi – o mais importante festival de animação da América Latina, e geralmente um lugar muito seco, digo, seguro.

Nesse ano, um dos locais onde o festival ocorreu aqui em Sampa foi no Centro Cultural Brasileiro Britânico, um prédio absurdamente moderno, que cheira a sacos de libras esterlinas. Eles também tem um restaurante excelente, que serve pudim de atum com molho de uva, e cujos garçons são com certeza agentes secretos disfarçados, dispostos a cortar sua garganta numa fração de segundo se você reclamar que pediu um guaraná sem gelo, só que te trouxeram uma água com gás e limão. Mas isso não vem ao caso.

Uma das características mais marcantes do CCBB é que, a exemplo de antigas fortificações medievais, ele é cercado por um fosso escuro e assustador. Hmm, talvez eu esteja sendo tendencioso. Na verdade, é um fosso muito bonito, que combina perfeitamente com a arquitetura deslumbrante, dando um ar de pântano fétido aos arredores. Gás metano salta em bolhas esverdeadas…

Está bem , está bem. O lugar é lindo, e tem vários espelhos d´água, capicce? Espelhos d´água calmos, tranquilos… gelados… mas já chego lá (há, há! Que frase espirituosa).

Depois de esperar agradáveis duas horas e meia em pé numa fila para conseguir um ingresso para uma sessão de videos com uma hora de duração, eu e duas amigas resolvemos participar de uma sessão de animação com areia. Isso na verdade não é tão animado quanto soa, mas deixarei os detalhes para serem completados por sua imaginação fértil.

Minha primeira amiga já tinha terminado (epa!), então chegou minha vez (opa!), enquanto minha outra amiga só observava (putz!!). Toda essa atividade frenética estava acontecendo num dos lados do grande saguão de entrada do lugar, onde devia haver pelo menos um zilhão de pessoas zanzando, entretendo-se em esperar em filas diversas e, como pude perceber alguns dramáticos instantes mais tarde, em NÃO despencar num dos espelhos d´água.

Agora, não sei se você, prezado leitor, gosta de mergulhar em espelhos d´água (ou, pratica, como preferimos chamar,”espelho-mergulhismo ornamental”). Não é tão fácil quanto pode parecer. Requer , entre outras coisas, massa corporal acima da média (para um bom efeito de “splash”), visão periférica vestigial, e uma absoluta falta de coordenação motora, forjada graças a anos de sessão da tarde e toneladas de biscoitos são luiz com piscinas de ovomaltine.

Sem querer me gabar, mas nasci para coisas assim. Realizar proezas embaraçosas em lugares públicos é um verdadeiro dom – meu super poder mutante. Se eu vivesse num mundo de super-heróis, eu teria provavelmente um nome como Patzo-Man, e junto com meu fiel ajudante Kid Toupeira livraria o mundo de malfeitores por puro acaso.

Estou dando voltas, tentando dourar a pílula. Mas a verdade nua e crua é essa: caí dentro da água, quase exatamente como um elefante-marinho (ainda que sem tanta graça e leveza).

Como já disse, isso faz parte de um talento instintivo – não tenho certeza de como aconteceu. O sujeito que tomava conta do estande de animação de areia disse que eu devia esperar do lado de fora do lugar. Para isso, eu precisava afastar um desses cordões de isolamento de filas de banco, pisar com o pé esquerdo no que me pareceu um degrau de mármore escuro e rebaixado, e voilá! Ou melhor, “tchibum”.

Em minha defesa, se o espelho d´água fosse rente ao chão acredito que o pior não teria contecido. Eu teria apenas enfiado um pé na água gelada, ficado constrangido, e escapado ileso. Mas a água estava abaixo do nível do chão uns bons trinta centímetros, e quando meu pé procurou o tal degrau de mármore preto que meu cérebro insistia com ele que estava lá, encontrou apenas uma certa quantidade de ar.

O pé girou duas vezes em falso, e mandou um aviso urgente para o sistema nervoso central abortar o passo. Mas o cérebro , a exemplo daqueles grupos de jovens que visitam casas mal assombradas em filmes de terror de quinta categoria, disse : “Puxa, o pé esquerdo foi dar um passo, e sumiu. Vamos todos lá para baixo procurá-lo?”.

E foram. Digo, e fui. Foi tão rápido que não deu para sentir medo. Num instante, girava no ar. No seguinte, estava debaixo da água. Isso é algo que eu não suspeitava sobre espelhos d´água: que são fundos o bastante para comportar um adulto inepto completamente submerso.

Nos poucos segundos que fiquei por ali, notei duas coisas interessantes. A primeira é que, quando a gente grita dentro da água, o som que fazemos é mais ou menos um “blublublublublu…”.

A segunda, e mais dramática, é que por algum motivo que me escapa, o arquiteto do Centro Cultural Brasileiro Britânico achou por bem fazer o espelho d´água entrar por baixo do chão cerca de meio metro.

Bem, meu caro arquiteto maquiavélico, fico satisfeito em informar que sua armadilha funcionou direitinho! Nem sei como descrever a expressão de divertido pavor no meu rosto, quando nadei para cima, e ao invés do óbvio ar encontrei uma boa e honesta laje de concreto.

O único senão é que escapei muito rápido: só precisei dar umas duas braçadas para a direita, e saí na superfície (mas não desanime – basta você instalar uma grade sob a borda, ou uns ganchos de aço, e você começará a colecionar esqueletos num piscar de olhos).

Depois que saí, foi tudo um grande anti-clímax. Um segurança me ajudou a sair da água, e a primeira coisa que ele disse foi:

– O senhor não precisa ficar envergonhado, acontece sempre.

Aaah, bom, pensei. Folgo em saber que estou num prédio onde é absolutamente normal pessoas mergulharem de cabeça nos espelhos d´água. O que vocês fazem na época de racionamento, se jogam nas vidraças?

Mas nada disse. Apenas segui o sujeito, que resolveu me guiar até o banheiro masculino mais distante de onde eu estava, de modo a me exibir para todo mundo.

Plotch, plotch, plotch, “Olá, tudo bem?”, plotch, plotch, plotch, “Que tempo, hein? Numa hora faz sol, e na outra…”, plotch , plotch, etc.

Eles designaram um faxineiro com um rodo para me seguir, e enxugar meu rastro. Acho que ele já estava cansado depois de enxugar os rastros de todos os outros despencados. Uma hora, já dentro do banheiro, perguntei a ele se ele tinha um pano seco para me emprestar. Ele disse que não.

– Tem certeza? Pode ser qualquer pano seco, uma flanela… – arrisquei.

– Aqui não tem pano seco. – respondeu ele, enigmático.

Pensando bem, talvez eles tenham gasto toda a verba de panos secos com o pudim de atum. Com molho de uva!

Finis

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3 Comentários on "Síndrome de Clouseau"

  • Paula diz

    Hahahahahah! Desculpe a risada! Mas eu fui uma dessas pessoas que também caiu nakele espelho d`água! Estou incrédula!

  • malena diz

    Provavelmente eu não riria se tivesse visto essa cena, mas seu modo de contá-la foi hilário! Escreveu bem…Dei muita risada….Eu já caí numa poça de lama, se isso ajuda em algo, he he eh…

  • “Troçar dos outros , mesmo como de si mesmo, não é uma boa higiene de espírito?”

    ( Quanto pior a desgraça melhor tem de ser a gargalhada!)

    HAHAHAHAHAHAHAHAH ESCREVEU DEMAIS!

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