Domingo em Antananarivo

Cheguei ontem à noite, via Johannesburgo. Vôo da Air Madagascar, avião velho e usado, mas limpo, pessoal de bordo gentil; símbolo pintado na cauda, a palmeira em forma de leque. A cara do país.

Aeroporto modesto, espera-me o Monsieur Leonnel, que jamais respondeu a meus e-mails. Burocrata sério, introvertido. Embarcamos em uma Renault 19 em estado de avançada decrepitude, chego a duvidar que nos leve até a cidade. No trajeto, conversa sobre importações da China, têxteis, concorrência desleal, possibilidades de aumentar tarifas, medidas de defesa. Estrada asfaltada mas sem qualquer sinalização, prédios modestos. Chegamos. Cansaço. Apanha-me no hotel segunda-feira, 8:00 da manhã.

Hotel Colbert, colonialismo moderno francês. Decoração francesa, com leve sotaque local. Exotismo light.

Café da manhã. Croissant de verdade (1 só, promessa). Croissant é teste fatal. Só francês sabe. Suco de grenadelle = maracujá.

Bermuda, tênis, óculos escuros, uniforme de turista. Direção ao mercado. Ambulantes em quantidade oferecem jornais, frutas, artesanato, algumas crianças pedem esmola. Coleção de estandes de alvenaria, telhas francesas, tetos pontudos, quase orientais. Transição entre África e Ásia, como os genes locais. Formas tradicionais (tetos inclinados das cabanas), materiais europeus (pedra e cimento). Belo conjunto arquitetônico, equilíbrio de linhas e volumes.

Escadas entre casinhas, quase barracos, ladeiras. Rumo ao Palácio da Rainha Mankamiadana, meados do séc XIX. Edifício quadrado, 4 andares altos, torres quadradas salientes nos quatro ângulos. Domina a cidade. Elementos decorativos clássicos. Ruínas, incêndio em 1995. Reconstrução lenta, parada. Não troquei dinheiro para comprar entrada (2500 Ariary = 1 Euro). Choferes de táxi na entrada, bela sombra de um imenso jacarandá, matam o tempo jogando pedrinhas em um tabuleiro riscado no cimento do beiral. Pedrinhas brancas e negras. Meninos oferecem visita guiada. Que jogo é esse? Uma espécie de damas. Venez, Monsieur, quer aprender a jogar? Chama-se Fanorna (fa-nú-rn). Regras simples, mas infinitas possibilidades de ataque e defesa. Um deles explica: antigo jogo hebraico (as linhas do tabuleiro formam estrelas de David), trazido há séculos por mercadores judeus e árabes. Sobrevive no Madagascar, popularizado pela nobreza, treino de estratégias de batalha. Monsieur vem de onde? Brasileiro – futebol, Ronaldo, um cantarola Aquarela do “Brasil, Brasil…”. Quem diria, Ary Barroso no Madagascar. Repasso as regras de movimento das pedras. Me desafiam para uma partida. Empate, sorte de principiante – ou gentileza com o estrangeiro. Observo os outros, jogam rápido, a cada movimento muitos palpites em malgaxe, língua estranha, sonora. Todos bilíngües. Jogo termina com a chegada de dois orgulhosos galos de briga, seus donos igualmente. Limpam o chão de terra – só treino. Combate mais tarde, com direito a sangue e apostas. Meu irmão Walter no Madagascar.

Continuo o passeio, esplanada com belíssima vista para a cidade, colinas. Demoro-me. Mendigo levemente alcoolizado puxa conversa, sente pena de ver monsieur sozinho olhando paisagem. Oferece-me rum local no gargalo. Non, merci. Abre a garrafa, joga um pouco no chão, “pour les ancêtres” – pro Santo (!) – dá vários goles. Bêbado igual no mundo inteiro. Rio sozinho.

Mais abaixo, catedral católica, final séc XIX, rosácea gótica. Multidão em trajes domingueiros (senhoras com finas estolas de seda nos ombros, elegantes; senhores de terno e gravata). Não ouso entrar (bermuda). Pela porta principal, o som de grande órgão, Ave-Maria de Schubert, cantam em malgaxe, grande fervor. A 200 metros, a igreja Episcopal, nova multidão, todos de bíblia em punho. África herdeira e futuro do Cristianismo.

À tarde, Jardim zoo-botânico de Tsimbazaza. Palmeiras e leguminosas estranhas, outras plantas ornamentais populares no Brasil. Evito as jaulas, com exceção da dos lêmures, mistura de gato e macaco. Observo. Dois senhores saem de trás das casinhas em forma de círculo. Sussurram “venez, monsieur”. Entro por um pequeno portão, deve ser proibido. Depois me pedirão umas moedas. É hora de alimentar os bichos. Nomes científicos (“macaco fulvio” !), várias espécies, pequenos, maiores, impressionantes olhos verdes, outros olhinhos azuis muito claros, lindas pelagens, uns com coroas brancas, douradas, todos com pequenas patas, mãozinhas, cinco dedos, lambem mel dos dedos do senhor mais moço. O mais velho acaricia os bichos fora das jaulas: são monogâmicos, têm poucos filhotes, às vezes nascem gêmeos, algumas poucas espécies têm ninhadas. Fêmeas, sempre de pelagem mais clara, dominam os bandos. O senhor mais moço, com orgulho: só existem no Madagascar, são únicos. O mais velho retruca: cada um é único.

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1 Comentário on "Domingo em Antananarivo"

  • José Ignacio diz

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