O Hipotálamo

Quando começaram a namorar, um dos motivos que fez com que ficasse caidinho da silva foi o fato dela ser tão organizada com seus horários. Nunca havia visto uma pessoa assim, com essa força de vontade e disciplina.

Claro que os olhos verdes e as pernas bem feitas também ajudaram, mas isso é detalhe. Não suportaria viver com uma mulher que não soubesse colocar ordem em seu quarto, o que dirá na própria vida.

E então o sorriso liso e os longos cabelos encaracolados contribuíram para que aquela paixão pegasse fogo. Era a mulher de sua vida, definitivamente.

– Não, hoje não posso. Você sabe, depois das onze e meia, cama.

Não demorou muito a descobrir algumas desvantagens. Noite de sábado, ele queria levar aquelas pernas e o sorriso para passear, mas não, só se fosse mais cedo. Onze e meia o alarme tocava e o prazo era improrrogável.

– Só meia horinha. Amanhã você dorme até mais tarde.

Em vão. Nem os sábados escapavam. O que dirá os domingos?

– Um churrasquinho inocente. O que tem de errado?
– O problema não é o churrasco. É o horário.
– Mas você não pode só uma vez na vida almoçar às duas? É domingo!

Mas não, nem adiantava argumentar. Uma das outras qualidades que fez com que ele se apaixonasse por ela foi a sua determinação. Um ano e alguns meses depois, a determinação virou teimosia. Ah, o tempo… impiedosamente, o tempo apaga as chamas e deixa os restos do incêndio ali, os escombros escancarados, e tudo se transforma, inclusive os pontos de vista.

Certa vez, tiveram uma briga terrível e chegaram a pensar em romper. Os olhos da menina pareciam duas lagoas cheias de água até a borda, e o verde das íris quase foi engolido pelo vermelho que o contornou. E, embora a paixão estivesse esquecida, o amor continuava forte. Ele não queria, percebeu que não queria, viver longe daquela pele que, de tão branca, parecia aveludada.

– Tudo bem, eu lhe conto a verdade, explico tudo.

Nunca pensou que houvesse um segredo entre eles, embora não tivesse contado que aquele troféu que guardava na sala de sua casa, do campeonato de futebol infantil, havia sido conquistado quando ele fazia parte do banco de reservas.

– Explicar o quê?
– Eu só obedeço a ordens. É ele que me manda fazer tudo isso.
– Ele quem? Fazer o quê?
– Acordar às oito, comer ao meio-dia, depois às quatro e depois às sete. Até ir ao banheiro… bem, não queria dar detalhes assim, tão sórdidos, mas até o horário de ir ao banheiro, eu desconfio que seja ele quem controla.
– Mas ele quem???

A menina não tinha pai, havia sido criada pela mãe, que não se casou de novo. Nenhum padastro, portanto. Sem irmãos. Os avôs haviam morrido quando era pequena. Não encontrou qualquer possibilidade entre a família de haver um homem que mandasse nela assim. O ex-namorado talvez… não, ele mataria o cafajeste!

– É aquele seu ex, não é? Aquele cara do brinco. Ah, mas eu acerto as contas com ele, de hoje não passa!
– Não é nada disso. Nunca mais vi o Esquilo.
– Então quem diabos é ele?
– Promete que vai ser compreensivo?
– Prometo. Agora responda: quem é?
– O Hipotálamo.

Depois de um breve silêncio recheado de interrogações, ela resolveu continuar a explicação.

– Você conhece, né? O Hipotálamo.

Ele não conhecia. Estudava Economia há três anos, entendia tudo de mercado de capitais e variações cambiais, mas, decididamente, o Hipotálamo não conhecia.

– Quem é esse cara? Quem é???

E antes que ele ficasse furioso e começasse a quebrar o apartamento, ela tratou de contar tudo. Havia sido apresentada ao talzinho nas aulas de Medicina e sua vida nunca mais foi a mesma desde então. Não, não precisa ficar com ciúmes, bobo. O Hipotálamo faz parte de mim, está aqui dentro. Não adiantou. Ele só ficou com mais ciúmes ainda. Até que enfim, a menina resolveu dar informações técnicas.

– Está no meu cérebro, faz parte da Hipófise, uma glândula-mãe que regula grande parte das funções hormonais do corpo. Por exemplo: é o Hipotálamo que tem a função de cuidar de perto do sono-vigília, ou seja, regula a hora de dormir e de acordar.
– E eu não tenho esse Hipotálamo?
– Claro que tem, todos nós temos.
– Pois eu é que mando no meu. Grande bobagem! Deito e durmo em qualquer lugar, não tem hora marcada.
– Pode ser, mas o meu é temperamental. Ou faço tudo como ele quer, ou estou perdida.

Foi estranho aceitar que aquela menina que parecia tão forte e decidida, na verdade era uma completa submissa a esse misterioso Hipotálamo. Um pau mandado, isso sim. Não gostou nada daquela história, e chegou a desconfiar dela. Mais lágrimas depois, a menina dos olhos verdes lhe deu um livro enorme, com não sei quantas páginas descrevendo o dito cujo. Então ele começou a entender melhor aquela história, ao menos era científico. E contra a ciência, que diabos? Estava lá, nos livros, não era algo a ser contestado assim. Vai ver que a teimosia toda nem era culpa da menina, o grande vilão da história era o bendito Hipotálamo!

Ainda tentou levar a história adiante e ser compreensivo como havia prometido, mas aquilo era demais para ele. Não poderia conviver com um terceiro naquela relação. Gostava muito da menina, sofreu horrores quando terminou tudo. O problema não era ela, entende? Só não podia separar aqueles dois, um não viveria sem o outro, literalmente. Se ainda houvesse uma possibilidade, qualquer possibilidade… mas não, ele teve que se resignar e aceitar o fato de que se casasse com a menina do nariz de boneca e pele de veludo, não estaria levando somente ela para a sua vida. Teria que aceitar definitivamente aquele Hipotálamo e não sabia se estava preparado para isso. Já pensou se o talzinho resolvesse lhe dar ordens também? Pior: se resolvesse ensinar ao seu como é que deveria agir? Não, não queria correr esse risco. Gostava de sua vida assim, com ele no comando de tudo.

É verdade que de vez em quando chegava a desconfiar da complacência do seu Hipotálamo. Com o da menina não tinha remédio, nem brincadeira. Era tudo ali, na risca. Será que o seu era assim, tão relaxado, de propósito? De maneira premeditada, fazia-se de bom companheiro para passar despercebido, mas na verdade, poderia ser só uma estratégia para não haver revoltas. Muito esperto…

Hoje, quando sente os olhos pesarem de sono, ele resiste. E nunca acorda no mesmo horário, nem que seja com um minuto de diferença, para mostrar quem é que manda. Está pensando o quê? Perdeu a mulher da sua vida porque não suportaria viver com um intruso em sua casa, imagine isso, viver com intruso dentro de sua cabeça!

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8 Comentários on "O Hipotálamo"

  • gisela diz

    Muito legal, tb sou controlada, mas de vez em quando dou um perdido no meu hipotálamo.Mandei um texto esses dias e entrei no site para ver se tinham publicado o meu. Publicaram o seu. Fiquei com raiva e fui ler para ver se era melhor. É melhor! muito melhor! Parabéns e obrigada. O maior prazer de qq escritor não é escrever, é ler. Vc deve saber disso. Boa sorte.

  • malena diz

    doido. doido. só tem doido por aí.

    hahahahah

    tadinho do hipotálamo do personagem, deve ter ficado tão frustrado…sendo tratado com tanta indiferença…q dó!

  • José Ignacio diz

    Muito bom mesmo. Dá vontade de fazer igual, e ao mesmo tempo intimida. Um incentivo poderoso para quem gosta de ler e escrever!

  • Clarissa diz

    Sou um pouco suspeita para comentar (conheço a competência da autora há tempo). Porém, confesso ser essa uma de minhas crônicas favoritas; tão bem escritas como uma do mestre LFV. Parabéns, Fabi. Continue sempre nos suprindo de bons presentes como esse.

  • Ei Gisela! Não fique assim! O texto da Fabiane demorou mais de 3 anos pra ser publicado! E realmente é ótimo! Nós, infelizmente, não conseguimos nos dedicar a essa sessão (dos cronistas-leitores) como deveríamos. Mas te juro que guardamos tudo e um dia vai! Tá pior que repartição pública!

  • Realmente fantástico, de cair o queixo, inteligente e meio louco, adorei, parabéns.

  • O meu hipotálamo tbm manda em mim. Não adianta tentar convencê-lo que o filme é bom pq depois das 23 hs ele desliga o sistema.

  • Inteligente, bem escrito e bem humorado. E ainda aprendi o que é ‘hipotálamo’.

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