Atlas

Chegou a hora que ele mais gostava.

Depois de um dia longo de trabalho, um banho rápido numa bacia e uma sopa rala, ele acende a lamparina e começa a folhear mais uma vez as páginas do Atlas já velho e amarelo não só devido ao tempo, mas às mãos sujas também.

Jamais leu um livro, revista ou jornal inteiro, achava muito chato. Seu Atlas, porém, só era chato nos pólos, pensava. Encontrou-o numa montanha de entulho há mais de duas décadas e desde então, é uma fissura enorme para que cada noite chegue o quanto antes.

Conhecia todos os cantos do planeta, cada ilha, formação rochosa ou golfo. Capital da Suazilândia? Mbabane. A segunda maior ilha? Sumatra. A profundidade do mar amarelo? 91 m. Riu sozinho se perguntando qual o idiota teria dado um nome tão ingrato para a capital da República Tcheca ou se foi mesmo um mascate quem fundou a capital de Omã.

Nunca pensou em visitar qualquer um desses lugares. Ele sabia como eram. Cidades são pontos ou quadradinhos; uns pretos, outros vermelhos. O que há mais para se conhecer nelas? Nada, não vale a pena ir, dizia.

Gostava mesmo era de viajar de uma cidade à outra, sem norte ou limite de páginas. Por um tempo usou as ferrovias, mas de uns anos pra cá seguia pelas estradas. Mais opções para ir e vir e, além disso, gostava da cor. São como sangue correndo pelas veias do mundo.

E lá se vai o dedo indicador a 2.000 Km/h entre Berlin e Varsóvia, de lá para Bucareste, Istambul, Ancara… Ficava assim sozinho, horas a fio com o mundo inteiro, matando sua depressão.

Pegou no sono provavelmente quando chegava a algum lugar da China. Dormiu como uma pedra. Acordou junto com a aurora, lavou o rosto, tomou café e o único caminho que realmente conheceu na vida. De casa para o trabalho, distante 2 km.

Andou devagar sem olhar para os lados, como se carregasse o peso do céu nas costas.

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3 Comentários on "Atlas"

  • Paulo diz

    Também gostei bastante: sucinto, elegante, forte.

  • Muito bom, Mamute! Sinceramente! Parabéns!

  • diz

    Desde pequeno sempre curti mapas, e esse texto consegue transmitir muito bem o prazer de se viajar pelas formas e cores do papel. Uma beleza!

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