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Atlas - (01-11-2005) - por Ricardo Bollier Chegou a hora que ele mais gostava. Depois de um dia longo de trabalho, um banho rápido numa bacia e uma sopa rala, ele acende a lamparina e começa a folhear mais uma vez as páginas do Atlas já velho e amarelo não só devido ao tempo, mas à s mãos sujas também. Jamais leu um livro, revista ou jornal inteiro, achava muito chato. Seu Atlas, porém, só era chato nos pólos, pensava. Encontrou-o numa montanha de entulho há mais de duas décadas e desde então, é uma fissura enorme para que cada noite chegue o quanto antes. Conhecia todos os cantos do planeta, cada ilha, formação rochosa ou golfo. Capital da Suazilândia? Mbabane. A segunda maior ilha? Sumatra. A profundidade do mar amarelo? 91 m. Riu sozinho se perguntando qual o idiota teria dado um nome tão ingrato para a capital da República Tcheca ou se foi mesmo um mascate quem fundou a capital de Omã. Nunca pensou em visitar qualquer um desses lugares. Ele sabia como eram. Cidades são pontos ou quadradinhos; uns pretos, outros vermelhos. O que há mais para se conhecer nelas? Nada, não vale a pena ir, dizia. Gostava mesmo era de viajar de uma cidade à outra, sem norte ou limite de páginas. Por um tempo usou as ferrovias, mas de uns anos pra cá seguia pelas estradas. Mais opções para ir e vir e, além disso, gostava da cor. São como sangue correndo pelas veias do mundo. E lá se vai o dedo indicador a 2.000 Km/h entre Berlin e Varsóvia, de lá para Bucareste, Istambul, Ancara… Ficava assim sozinho, horas a fio com o mundo inteiro, matando sua depressão. Pegou no sono provavelmente quando chegava a algum lugar da China. Dormiu como uma pedra. Acordou junto com a aurora, lavou o rosto, tomou café e o único caminho que realmente conheceu na vida. De casa para o trabalho, distante 2 km. Andou devagar sem olhar para os lados, como se carregasse o peso do céu nas costas. |
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Paulo - link 28-09-2005 02:58
Também gostei bastante: sucinto, elegante, forte. |
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Ricardo - link - ricardo@cronistasreunidos.com.br 28-09-2005 11:43
Muito bom, Mamute! Sinceramente! Parabéns! |
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Zé - jicmendes@gmail.com 28-11-2005 08:18
Desde pequeno sempre curti mapas, e esse texto consegue transmitir muito bem o prazer de se viajar pelas formas e cores do papel. Uma beleza! |