Os micos não contados do carnaval

A nossa Escola, naquela sexta, seria a última a entrar na avenida do samba. Diante disso, resolvemos passar na concentração, apanhar as fantasias e ir direto ao hotel; após um cochilo, rumar ao desfile.

Lá pelas onze da noite, estávamos a catar nossas fantasias e tivemos uma surpresa: ela não cabia no carro porque o seu costeiro (parte da fantasia colocada sobre os ombros) era formado por ferros pontudos de aproximadamente um metro de comprimento. De imediato, mudamos os planos e fomos para nosso programado cochilo.
Trimmmmmm…

O relógio despertou quase três da matina e eu ainda estava sem fantasia.

Os colegas da escola partiriam às três e meia da concentração em direção ao sambódromo… Liguei no quarto ao lado, para minha amiga de desfile e ouvi:

– Vamos desistir, ainda há tempo???

Depois de tamanha superação, não poderia morrer na praia.

– Desistir? Tá louca? Agora vamos de qualquer jeito….

Ao chegar na concentração, vimos que os ônibus estavam com seus motores ligados. Todos os sambistas praticamente enlatados com suas fantasias e nós, calmamente, a procurar os nossos benditos costeiros…

Bem, é hora de falar detalhadamente dos tais costeiros.

A minha fantasia era de “pescador encantado” e o costeiro, como eu disse acima, era formado de vários pedaços de ferro que formavam algo parecido com um leque. Na ponta desses ferros era enganchada uma fina corda de náilon, recheada de bolinhas, não tão pequenas, de isopor. Aos lados dos ombros caíam as bolas e dava-se a impressão de uma rede… Aí morava o perigo porque realmente formava uma rede e o peixe, no entanto, era eu.

Ao formar a ala, fui percebendo que a minha “rede” estava apta a enroscar em todas as redes do caminho. Poderia pescar, se quisesse…

A cada passo pelas ruas que davam ao sambódromo eu ia me especializando em me enroscar e aquela situação ia me dando calafrios. Há, ainda, um detalhe importante: era impossível me desvencilhar sozinho quando enredava algum colega de profissão, ou seja, outro pescador. Era necessária a presença da “mãe d’água” (mulheres da nossa ala) para fazer o papel da “desatadora dos nós”.

Rojões ao céu e o grito de guerra a ecoar quando ouvi a sirene ensurdecedora de uma ambulância. Imediatamente me desconcentrei e, obviamente, pesquei meu vizinho.

A ala toda se abrindo para ambulância passar e de repente percebi que todos os pescadores e mães d’águas miravam para a minha direção. Eu espantado e enroscado não sabia o que fazer…

– Pô, Cara, não tá vendo a ambulância?

Eu estava, nada mais, nada menos, que em frente ao portão de saída, enroscado ao meu colega. Meio desajeitado, dei um sinal para que desse um passinho pra frente e, como num passo sincronizado de balé, fomos os dois pra direita e a ambulância seguiu no seu desespero rotineiro.

A coreografia montada sobre o samba-enredo determinava que em certo momento todos dessem um giro de trezentos e sessenta graus. Pois é, vocês já podem imaginar o que aconteceu na hora do giro na ala dos pescadores… Isso mesmo, foi bolinha de isopor pra todo lado.

Que sufoco!

Além de tudo, eu estava numa das extremidades da ala e não parava de ser chamada a minha atenção por uma das dirigentes da ala.

– Você enroscou porque não prestou a atenção e está muito perto do seu companheiro!

– Não saia da ponta, não pode haver buracos na ala!

– Cante o samba, vamos!!!

Em meio a tanto estresse eu sambei, cantei, enrosquei, pesquei e me diverti.

O único problema é que a escola não ganhou o título porque perdeu 0,25 pontos na harmonia. A pergunta que não quer calar:

– Será que a minha pescaria contribuiu para a perda?

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3 Comentários on "Os micos não contados do carnaval"

  • diz

    Sentimento de culpa, até no Carnaval? Desencana!

  • Murilo Boudakian Moyses diz

    Foi roubado com certeza!

  • DENILZA diz

    MUITO BOM

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