MICRÔNICA [#1]

Se a crônica é a arte de encher lingüiça, vou tratar aqui de encher uma salsichinha de canapé, já que a proposta é caber tudo num só parágrafo e “atachar” (quase que eu digo “atochar”) um poema à guisa de ilustração do tema enchouriçado, digo, ensalsichado. Ainda bem que a lingüiça é japonesa (isto é, concisa como um haicai), pois já colaboro em outras três colunas de revistas virtuais e nunca uso o mesmo assunto. Ao assinar esta MICRÔNICA vou parar de aceitar convites, pois, se esta é a quarta coluna, na próxima vão me acusar de quintacolunismo. E já pegando o gancho, não estou querendo sabotar a candidatura de ninguém, mas não é só a dengue que pode sujar reputações políticas: o lixo, o esgoto no rio, a comida estragada ou as enchentes generalizam a insalubridade e minam pretensões eleitorais em todas as esferas, federais, estaduais e municipais. Em resumo, nunca foi tão oportuno ser punk para usar a sujeira como bandeira e apregoar o voto nulo. Para requentar o anarquismo punk, aí vai um sonetinho do livro PANACÉIA:

SONETO 339 RECICLADO

Vivemos chafurdando em podriqueira.
Os ares se saturam de impureza.
As fezes empesteiam a represa.
Água já sai fedendo da torneira.

Nas carnes o sabor travado beira
a decomposição. À mesma mesa,
tresanda uma fruteira e mantém presa
a má respiração de quem a cheira.

Socorro! Vou morrer contaminado!
Nas vascas da agonia já estertoro,
somente prelibando meu bocado…

Que nada! O conservante, o vento, o cloro
disfarça a podridão do mau estado…
Vomito, volto, voto, e já melhoro.

Compartilhe!

1 Comentário on "MICRÔNICA [#1]"

  • diz

    E a Freguesia, ó, agradece.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *