MICRÔNICA [#2]

Apesar dos rumores em contrário, nunca fui pederasta passivo. Sempre fui, contudo, pedestre passante. E passageiro, pois a vista curta não me permitia dirigir. Quantas vezes viajei de pingente nos busões, do trabalho pra faculdade! E não tinha alternativa: quem não tinha carro andava de ônibus ou tomava táxi. O metrô não existia, e nem se falava nos perueiros. Havia carros fazendo lotação, mas eram tão raros que passavam despercebidos. Agora não: os perueiros ocuparam tanto espaço (na rua e na mídia) que não passa um dia sem que o noticiário fale deles. Se não fossem os talibãs e a dengue, acho que não sairiam da primeira página. Tirando os tiros e pondo os pontos (finais e iniciais) na balança, chega-se à conclusão de que, caso fossem obrigados a sair das ruas, aí sim é que não sairiam do noticiário, tamanha a falta que fazem numa megalópole onde o metrô não tem metragem suficiente e os busões são abusões da paciência de quem espera no ponto. Portanto, informais ou não, cabe aos perueiros mais tributo que tributo, isto é, mais homenagem que imposto. De minha parte, fiz-lhes o soneto abaixo, que aparece no livro PANACÉIA:

SONETO 366 PERUEIRO

Direito de ir e vir, na urbana zona,
já vem adjetivado: clandestino.
Sem ponto inicial e sem destino,
é como andar ao léu, pedir carona.

Milhões de passageiros vêm à tona
no mar do subemprego citadino.
Em rica limusine os leva o fino
chofer, e a domicílio os estaciona.

Sem ônibus ou táxi ou trem, o povo
o vê como o ceguinho vê seu guia.
Sem ele não vou longe: nem me movo.

Melhor que caravela em calmaria
é ter esse Colombo com seu ovo.
Pão nosso, lotação de cada dia!

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2 Comentários on "MICRÔNICA [#2]"

  • Rafael diz

    Ruim com eles, pior sem eles. Acho que estamos bem longe de saber.

  • Rodrigo Monzillo diz

    Banalizar e rasgar o código de trânsito virou moda, temos até uma nova classe… os Peruqueiros….

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