MICRÔNICA [#4]

O Brasil faz mesmo o gênero do país mambembe-envergonhado, que tenta disfarçar sua indigência atual e quer varrer as mazelas do passado pra debaixo do tapete. Nossa história pouco estuda conflitos como a Guerra dos Farrapos ou a Guerra dos Mascates, talvez porque gente maltrapilha e vendedores ambulantes dão má impressão na foto colorida do cartão postal. Pelo mesmo motivo os governantes do momento não sabem como lidar com moradores de rua ou camelôs, cuja presença nunca foi lá muito decorativa nas pranchetas dos projetistas das belezuras. Dos rueiros falarei noutra oportunidade. Agora penso nos marreteiros e exemplifico com uma experiência pessoal. Quando quis comprar novos óculos escuros para proteger meus olhos cegos dos ciscos e esbarrões, procurei num shopping um modelo que tapasse bem dos lados com haste larga. Caí de costas com os preços dos “sun glasses” importados, mais caros que um televisor. Só por causa da grife? Um simples pedaço de plástico! Num camelô achei o modelo que queria pelo preço dum chinelo. Fiquei com mais raiva das butiques e já encaro os ambulantes com mais simpatia. Acho que estes são mais brasileiros e mais iguais a mim e a meu bolso, embora o Brasil oficial seja mais cego que eu face à realidade. Ao vendedor dos meus óculos escuros dedico este soneto do livro PANACÉIA:

SONETO 365 MARRETEIRO

Miçangas, badulaques, miudezas.
Ao sol, quinquilharia, livre feira.
Na esquina, na calçada, na ladeira,
ofertas, novidades e surpresas.

Muambas que deixaram de ser presas.
Comidas que não vão à geladeira.
Gorjetas na sarjeta, na sujeira.
Achaques a pessoas indefesas.

O rapa passa rápido e reprime.
Mais rápido, o ambulante se mistura
ao povo, cuja luta não é crime.

Nas veias da metrópole, a fartura
afronta a autoridade, que se exime
da culpa, da lição, da ação, da cura.

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