MICRÔNICA [#6]

Ao Brasil não falta tamanho, mas parece faltar lugar. Em matéria de habitação, todo mundo tira de letra, ou muda de letra, ou bota mais letra, já que sempre cabe mais uma. Do sapê ao apê, do barraco ao barranco, o brasileiro não mora: mura; não habita: se habitua. E como tudo é relativo neste mundo, serve de consolo que, se aqui um apartamento mais parece apertamento, no Japão os primeiro-mundistas, com todo seu poder aquisitivo, dormem engavetados em paredes coletivas por falta dum espaço que qualquer terceiro-mundista bem mais pobre (como eu) tem de sobra a preço muito menor. Claro que acho minha taxa de condomínio escorchante para um caixote de cimento, mas prefiro pagá-la com sacrifício a ficar ao relento. No verão meus vizinhos parecem preferir passar a noite na rua a suportar um quarto abafado, mas quando chega o inverno ninguém inveja aqueles que dormem na rua por falta de opção. Nessas horas todos se lembram do indigente, mas só para sentir o alívio de não estarem no lugar dele, ou antes, na falta de lugar. Do outro lado, o consolo é que, ao menos, os desabrigados já não se consideram tão desobrigados e começam a ter consciência de que a casa própria é uma causa própria. Ainda que dependa de desapropriações. Quanto a mim, apropriei-me dos personagens da MPB para sonetar esta homenagem aos “homeless” no livro PANACÉIA:

SONETO 369 SEM-TETO

Maloca a mais saudosa foi aquela
que fez do Adoniran cronista urbano.
O Joca, o Mato Grosso e outro fulano
são símbolos que a música congela.

Cortiço ou invasão? Bairro ou favela?
Blocado, sublocado ou subumano?
Qualquer habitação serve de pano
de fundo para o enredo da novela.

Paredes têm ouvidos, não têm olho.
Um simples papelão pode ser casa.
O pobre não precisa de ferrolho.

Noel também foi gênio: é cama rasa
a folha de jornal na qual me encolho.
O orvalho é o teto, e o cego ave sem asa.

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