MICRÔNICA [#7]

Maio sempre abre com manifestações comemorativas e reivindicativas do proletariado, mas pouco se fala do chamado “campesinato”, mesmo depois de todo o barulho que o MST conseguiu espalhar. Em termos emblemáticos, celebra-se muito mais o martelo que a foice. Sem dúvida uma falha publicitária do movimento, cujo marketing tem se aperfeiçoado tanto, a ponto de furar o bloqueio israelense e visitar o QG de Arafat logo após ter invadido a fazenda presidencial sem que os serviços de inteligência tivessem tempo de abortar a operação. Mas sempre é tempo de mudar de tática e renovar a propaganda. Mesmo que a foice não seja um símbolo tão popular por aqui quanto a enxada, pode-se meter a foice alheia na nossa seara e criar slogans tipo “Briga de foice no claro” para ocupações diurnas com cobertura da mídia. Ou: “Mais vale ser martelo que bigorna, mas é melhor ceifar que malhar em ferro frio.” Por falar em lemas e dilemas, o movimento tem um belo pepino filosófico para resolver: é internacionalista (Trabalhadores de todo o mundo, uni-vos!) mas se opõe à globalização. Apóia os muçulmanos no Oriente Médio e os narcoguerrilheiros na América Latina, mas a lei islâmica condena traficantes à morte (exceto os papouleiros do Talibã)… Enfim, como as contradições e incoerências não são privilégio desta ou daquela ideologia, vale festejar o Dia do Trabalho, seja ficando sem trabalhar, seja trabalhando na luta contra o patrão que desfruta o feriado. Quanto aos lavradores, os palavradores como eu só têm a colocar, entre a foice e o martelo, uma pena em forma de espada, ou de alfinete, caso deste soneto do livro PANACÉIA:

SONETO 370 SEM-TERRA

Não há justiça agrária sem reforma,
repete o campesino rebelado.
“Ou cedem-me o terreno, ou eu invado!”
E o latifundiário se inconforma.

Marxismo primitivo, mas em forma:
Com práxis de guerrilha, lança o brado,
sitia, ocupa, pilha a safra, o gado,
arrepiando o estado, a lei, a norma.

Revolução começa pelo campo
e acaba na cidade, onde se junta
à massa de manobra a mão sem trampo.

No ar, só paira a histórica pergunta
que o inepto agente capta pelo grampo:
“Quem disse que a utopia era defunta?”

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