MICRÔNICA [#10]

Todo 25 de janeiro a TV Cultura tem inserido na programação poemas celebrando a cidade, declamados por vozes aclamadas, entre os quais meu soneto “Ao Metrô”. Resolvi compor outro soneto, mais a propósito, depois de constatar que São Paulo não aniversaria apenas em janeiro. Afinal, datas como 25 de março, 7 de abril, 24 de maio, 29 de junho, 9 de julho, 11 de agosto, 7 de setembro, 12 de outubro, 15 de novembro e 3 de dezembro evocam fatos que, direta ou indiretamente, têm relação com a cidade e, por conseguinte, com o país. Se fevereiro fica de fora é por ser mês de férias e de carnaval, coisas que não condizem muito com a capital do trabalho. Já maio, mês do dito, além das mães e das noivas, tem tudo a ver conosco. São Paulo é mãe para quem aqui nasceu, mãe em cujo coração sempre cabe mais um adotivo — ainda que seja desnaturada e muitos filhos lhe sejam ingratos. E é noiva dos poetas que, como eu, não desistem do compromisso — ainda que fique para tia, cada vez mais decadente e decaída. Para alguns, uma Tiazinha, que se mascara e trata a todos com chicote. Para mim, está mais para Tia Nastácia, a serviço duma Dona Benta federal e desrespeitada por Emílias, Narizinhos e Pedrinhos estaduais. Se Lobato fosse vivo, além de O PRESIDENTE NEGRO teria escrito A GOVERNADORA NEGRA e O PREFEITO NEGRO, enquanto seu Yellow Woodpecker’s Site já estaria sendo visitado virtualmente. Aos poetas restaria escrever O CIDADÃO NEGRO, cuja maternal estátua no largo do Paissandu (ainda estará lá?), somada ao Marco Zero e ao Pátio do Colégio, daria o panorama monumental da pluralidade étnica na edificação da metrópole. Maior capital nordestina fora do Nordeste, maior cidade fora do Primeiro Mundo, maior aglomerado humano fora do Planeta, São Paulo completa anos-luz a cada fração de segundo. Merece aniversariar todos os dias, inclusive no Zero de Zerembro. Inédito em livro, este soneto é, portanto, permanentemente oportuno:

SONETO 501 URBANIVERSADO

Feliz aniversário, Paulicéia!
Do Pátio do Colégio ao infinito,
o imenso não é feio nem bonito:
darás de megalópole uma idéia?

Tens cara de africana ou de européia?
Tens árvore de figo ou de palmito?
Tens catedral de taipa ou de granito?
Tens flor? É rosa, hortênsia ou azaléia?

Te tornas, ano a ano, mais mudada:
quem chega não se encontra com quem parte;
a rua não se avista da sacada.

Poetas não têm jeito de saudar-te;
tu, pois, que cantes, antes de mais nada,
que és obra, em fundo e forma, in progress: arte!

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1 Comentário on "MICRÔNICA [#10]"

  • diz

    Excelente… Meu coração paulistano de asfalto e concreto bateu mais forte, e restou-me um sorriso aberto como uma clareira no trânsito.

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