MICRÔNICA [#11]

Tenho a impressão de que a consciência da nacionalidade é tanto maior quanto menor for o território duma nação. Portugal e Cuba são bons exemplos, pelo menos nas glórias e vanglórias literárias. O mesmo parece valer para estados dentro de países muito vastos, até como indício de preservação cultural local contra uma diluição artificial tipo macumba para turista. No caso brasileiro, o cartão postal, quando não é praia e morro, é baiana vendendo acarajé na roda de capoeira ou canoinha perdida num rio cercado de selva tropical. Tudo bem, mas e os Pampas? E a Oktoberfest? E a festa do peão? E o Pantanal? E a caatinga? Também para consumo interno algumas regiões puxam com mais êxito a brasa para sua sardinha quando se trata de inventariar o que seria uma suposta brasilidade. Até as palavras soam como que cunhadas para ter sentido: mineiridade, baianidade, por exemplo, traduzem uma carga valorativa da qual o brasileiro tem quase que obrigação de se orgulhar. Já “paulistidade” é estranha ao ouvido e ao dicionário, como se prevenisse ser coisa feia alguém se orgulhar de São Paulo. “Paulistanidade”, então, é palavrão cabeludo. Engraçado, né? Por que será que o baiano é incentivado a se gabar das boas coisas de sua terra e o paulista se envergonha de fazer o mesmo? Mais curioso ainda é que, quando um paulista perde a vergonha e se gaba, os brasileiros de outros estados não lhe dão o mesmo crédito que dão ao baiano. Não bastante, os baianos e outros brasileiros que vivem em São Paulo falam mal do estado e da capital. Por que será? Enquanto os sociólogos do IBGE não oferecem uma tese conclusiva sobre essa má vontade contra o patinho feio da federação (que em vez de virar cisne se revela uma galinha dos ovos de ouro), eu, que já fui à Bahia e já vi in loco o que é que o baiano tem, resolvi fazer coro ao resto da nação e ao próprio mano soteropolitano. O Senhor do Bonfim sabe o quanto é sincera minha homenagem neste soneto do livro PANACÉIA:

SONETO 338 BAIANO

Caymmi já cantou. Não quero tanto.
Gregório poetou. Apenas sigo.
Amado descreveu, e estou contigo:
é tua terra altar de todo santo.

Me toca o berimbau. Me encanta o banto.
Retoca o pelourinho meu castigo.
Atrás do trio elétrico me instigo:
sou pós-tropicalista, e aqui te canto.

Baiano, tens meu sonho e meu tesão:
bananas, cocos, caras, cores… yes!
Pirocas, carurus, cuscuz, pirão…

Moquecas, vatapás, acarajés…
Delícias que, de longe, abaixo estão
do gosto salgadinho dos teus pés!

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