cronistasreunidos.com.br
:: capa ::::: ricardo :: kris :: rafael :: volponi :: paulo coelho :: leopoldo :: :: murilo :::::: cronistas leitores :::::: quem somos :: em@il ::

MICRÔNICA [#12] - (17-08-2002) - por Glauco Mattoso

Pouca gente se lembra (até porque algum lobby assim prefere) que, se Ariel Sharon tem no sobrenome irônica semelhança com a palavra “shalom” (paz), tal semelhança parece ainda mais contraditória no sobrenome de Avraham Shalom, que nos 80 chefiou uma polícia secreta israelense chamada de Gestapo pelos palestinos e de Shin Bet pelos judeus. Na época foi abafada a denúncia de que os agentes do Shin Bet costumavam pôr em prática uma norma interna segundo a qual os palestinos deviam ser intimidados pela humilhação e obrigados a lamber os sapatos dos judeus sempre que enquadrados em qualquer patrulhamento rotineiro. Dizia-se que o ato de pisar na cara do inimigo era um gesto de superioridade previsto no texto sagrado. Não procurei na fonte hebraica, mas no Velho Testamento achei uma passagem (Isaías 49:23) alusiva ao domínio judaico, profetizando que “Reis serão os teus aios, e rainhas as tuas amas; diante de ti se inclinarão com o rosto em terra e lamberão o pó dos teus pés…” (citação que aproveitei no “Soneto Sionista”). O fato é que, na ocasião, a imprensa mundial divulgou (aqui saiu até na VEJA) fotos tiradas por Joel Kantor exibidas num museu de Jerusalém, nas quais um agente judeu punha o tênis no pescoço e no rosto dum civil palestino que lhe servia de capacho. Como vexame extra, a vítima fora obrigada a olhar para a câmera. O fotógrafo israelense acirrou a polêmica quando declarou: “Se você quer viver seguro dominando um milhão e meio de árabes, alguém tem que fazer o serviço sujo”. Quanto a Shalom, mesmo acusado de mandar torturar e executar prisioneiros palestinos, simplesmente demitiu-se e foi perdoado pelo então presidente Chaim Herzog. O tênis do policial judeu me excitou a ponto de quase me oferecer para lambê-lo no lugar do cidadão muçulmano, mas minha fantasia se satisfez com outro costume bíblico: dar um pé de sapato como sinal ao fechar um contrato, ao que respondi com o soneto abaixo. Deixo para outra vez minha homenagem ao pé do muçulmano.

SEGUNDO SONETO JUDAICO

Em Ruth expressa está a podolatria
num ato de comércio entre os judeus:
O sócio entrega ao outro um pé dos seus
calçados, em sinal de garantia.

A própria Ruth, serva crente e pia,
humilha-se ao seu homem como a Deus:
Estando ele nos braços de Morpheus,
deitava-se aos seus pés e ali os lambia.

Se tal costume aqui estivesse em voga,
eu só negociaria com alguém
que freqüentasse a minha sinagoga.

Mas isto aqui não é Jerusalém,
e o cego, que é podólatra, a Deus roga
o pé dum brasileiro, mesmo. Amém.

///

GLAUCO MATTOSO é poeta, letrista, ficcionista e humorista.
Seus poemas, livros e canções podem ser visitados no sítio oficial: http://sites.uol.com.br/glaucomattoso

Sugestão: aproveite para conferir o Dicionarinho do Palavrão, de Glauco Mattoso, à venda no Submarino.



Aproveite e veja mais crônicas no Arquivo de

:: ::
Daniela - link • 21-10-2002 03:09

Porra, Glauco.

Isso merecia estar na primeira página dos principais jornais do mundo. Inclusive os sionistas.

Insira seu comentário: (escreva quanto quiser!)
Nome:
E-mail:
Web Site:
Comentário:

 

..:: cronistasreunidos.com.br :: cronistas@cronistasreunidos.com.br ::..