Síndrome de Quimera

de Max Mallman
Editora Rocco

Expressões como “novo autor”, “nova geração” ou “jovens autores”, acompanhados ou não de advérbios de intensidade e adjetivos me provocam calafrios. Por isso, entrei com um pé atrás na Quimera, um dos menores “café-e-livraria” de Porto Alegre. Mas foi só dar a primeira passada de olhos pelo lugar para ver que minha desconfiança era infundada. Nada de anunciações na orelha: ela apresentava o enredo. Foi o suficiente para me desarmar e me deixar à vontade. Ponto para Max Mallmann e sua “Síndrome de Quimera”.

Mais tranqüilo, deixei que me fossem apresentados Vito, o protagonista, e Bruno, seu melhor amigo. O primeiro vive com o peito apertado, uma angústia de fundo que parece não ter fim; o outro, em compensação, não tem o menor problema para esvaziar a cabeça. O que faz os dois para lá de especiais é que, em ambos os casos, a causa desses fenômenos psicológicos e emocionais tem origens bem concretas. Vito tem uma cascavel enrolada no coração. Já Bruno costuma destampar a cabeça e tirar o cérebro para relaxar. Juntos, montam “A Quimera”, um acanhado café-livaria na capital gaúcha – uma daquelas idéias típicas de bêbados em boteco. Enquanto a loja vira o point de tipos estranhos como eles, os sócios lutam para fechar o mês com as contas pagas, o fígado em dia e um fiapo de romance ou sexo, o que der. O melhor, no entanto, é que por mais fantásticas que sejam as situações, os cenários e as pessoas, o que vemos ali é absolutamente humano e pé no chão. A busca de todos eles é aquela de toda geração quando começa a andar com as próprias pernas: pelo seu espaço e sua identidade. Tropeçando bastante no caminho, claro.

Dono de um texto leve, Mallmann não tem problemas para imprimir à narrativa um ritmo ágil, mas sem ser apressado. Contada em primeira pessoa pelo Vito, a história flui sem dificuldades, alternando as impressões do protagonista com as interações objetivas com o mundo exterior, normalmente em diálogos bem construídos. Além de compatíveis com cada enunciador em forma e conteúdo, o autor se vale deles para tentar evitar ou subverter, ainda que em graus modestos, clichês – é o caso da primeira conversa entre Vito e Falena. Só faço reparos a três pequenos excessos: às intermináveis referências à serpente enrolada no coração do Vito (no começo, funciona; depois, vira ruído); à enorme quantidade de vezes em que ele desmaia ou ameaça desmaiar por conta dela; às pequenas “explosões” do protagonista, que parecem um pouco fora de caráter e um recurso algo cafajeste para esquentar certas cenas. Em quase todos os casos em que essas ferramentas são usadas, elas são desnecessárias. A tensão já estava ali naturalmente, por conta de um bom trabalho na hora de apresentar os leitores ao passado e ao psicológico dos personagens – existe um conhecimento prévio sobre o que determinado fato significa e uma expectativa sobre a reação a ele. Assim, sublinhar esses momentos com estouros indignados ou síncopes acaba enfraquecendo a seqüência em vez de emprestar a ela dramaticidade.

A trama se desenrola numa estrutura clássica em três atos, com a apresentação dos personagens – especialmente Vito, que é o fio condutor -, depois a mudança de status quo e finalmente o desfecho. O conflito é bem construído ao longo das duas primeiras partes, com revelações interessantes e consequentes, bem como com a exploração competente das características especiais dos protagonistas. A galeria de coadjuvantes exóticos – uma menina feita de papel, um outro que se alimenta de eletricidade e assim por diante – e a criação de cenas inusitadas – como os ácaros no porão ou as sessões de férias para o cérebro de Bruno – são um showzinho à parte. Criam uma atmosfera que, ao mostrar os detalhes desse mundo ao leitor, confere realidade e verossimilhança ao livro. A terceira parte, no entanto, deixou a desejar para mim. Por mais que o entorno seja saboroso, o foco do enredo está na condição especial de Vito e na sua história pessoal. Depois de mexer todas as peças e armar uma situação intrigante, a resolução vem de forma quase automática, rápida e alheia às ações do protagonista, provocando um final anti-climático. O epílogo, porém, amarra bem as pontas soltas e é bastante satisfatório.

No fim das contas, o resultado é positivo. “Síndrome de Quimera” é entretenimento de primeira. Original e envolvente, o livro com certeza fará com você encontre, circulando entre as mesas de café com copos de vodka e as estantes organizadas de acordo com um código próprio, seus próprios amigos. Aquele pessoal sempre descrito – não sem um sorriso de canto de boca e cheio de segundas intenções – como “especial”, mas que se debate com um dia-a-dia tão normal.

Recomendado para: mostrar que de perto todo mundo é, sim, normal.

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1 Comentário on "Síndrome de Quimera"

  • Van diz

    Paulo, sem dúvida, ótimas horinhas de descuido! E eu nem tinha percebido tanto “se não”… Recentemente descobri que também tenho esta doença do Vito. Quer abrir uma Quimera comigo? Beijos, van

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