Outubro, Mês das Crianças

Essa crônica, na verdade, é uma pequena estória, de uma pequenina criança, que só queria ser feliz e brincar.

Agnaldo nasceu no sul de Minas, e quando tinha seus três anos veio para São Paulo acompanhado de sua família, sendo que era filho único. Logo fez novas amizades. Os anos passaram e já era amigo de todos em seu modesto bairro.

Aquela criança sempre teve um brilho a mais. Era especial, como uma estrela, era viva como uma alma, era esperto como uma raposa.

Seu melhor amigo se chamava Mário, aquele mesmo. Junto construíram uma amizade de carinho e atenção. Eram simplesmente unidos, corriam e brincavam o dia todo, sendo que a boa parte de atenção vinha de seus jogos de bola.

A propósito, Agnaldo ganhou sua bola, primeira bola, em um Natal muito especial, quando tinha apenas cinco anos. Aos oito ainda brincava sem parar com esse objeto. Jamais cansava, jamais desistia, gostava de brincar e ser feliz.

Ele também ajudava muito sua família. Passava boa parte da manhã engraxando sapatos em ruas movimentadas da cidade. Não ganhava muito, mas o que tinha ele contribuía para sua renda familiar.

Meses passaram e um vizinho novo se mudou. A casa que existia do lado da sua foi destruída para a construção de uma casa enorme, quase uma mansão, onde uma nova família iria morar. Pedro, o filho mais velho da família, tinha dez anos e logo fez amizade com Agnaldo e Mário.

Pedro tinha de tudo. Saúde, brinquedos, alimentos, nada faltava. Pedro era uma menino agitado, que também vivia brincando na rua e estudava longe, muito longe, num colégio particular. Seus outros amigos também tinham boas condições de vida e tinham tudo o que precisavam. Meninos burgueses, cheio de energia e má vontade. A ruindade às vezes prevalecia e brincadeiras infames eram feitas e provocações existiam entre eles.

Agnaldo e Mário jamais conheceram esses amigos de Pedro. Pedro brincava com os dois, quando não estava com seus colegas de escola.

Agnaldo teve momentos muito fortes em sua vida. Trabalhava excessivamente para poder sobreviver. E, ainda, arrumava tempo para ajudar os outros, como trabalhos voluntários, mesmo com seus nove anos, e de forma alguma parava de brincar com bolas.

Ele também sempre foi um bom aluno. Para suas condições de vida surpreendia e tirava as melhores notas, não só da classe, com da escola inteira e apenas com aquela idade já tinha recebido dois prêmios de redação e de competições estaduais de provas de raciocínio matemático. Era sem dúvida um garoto especial, brilhante, com muitas capacidades e qualidades.

Depois de um longo dia de trabalho e de aulas puxadas, votou para casa pronto para jogar bola. No caminho encontrou Pedro com seus colegas, que convidou Agnaldo, e chamaram Mário também, para jogar bola na casa do Pedro. Era a primeira vez que isso acontecia.

Lágrimas saíram dos olhos de Agnaldo, que sempre valorizou tudo o que teve. Contente, levou sua velha e estimada bola para o jogo de fim de tarde, que seria muito especial e faria novos amigos.

Quando chegou lá surpreendeu-se. Pedro e seus amigos ficaram esnobando e humilhando Agnaldo em função de suas condições de vida e sociais. A timidez de Agnaldo era maior que sua força de reação. Ele sofreu verbalmente, diretamente, humilhações de filhos burgueses. As lágrimas dessa vez não vieram, mas a agonia era insuportável.

Um dos amigos de Pedro pediu a bola emprestada. Agnaldo, com sua bondade e ingenuidade, não hesitou e cedeu. Os meninos não perderam a oportunidade e debocharam, muito, mas muito.

Mário não agüentou a situação e saiu, com sua bicicleta, que aliás Agnaldo havia lhe dado, fruto de muito suor e amor. Agnaldo tentou fugir e foi segurado pelos meninos. A humilhação foi total.

Finalmente, num movimento de esperteza, conseguiu sair correndo e deixou a velha e estimada bola na mão deles, que foram atrás.

Ao sair pelo portão, um dos meninos arremessou a bola, que bateu em sua cabeça e o fez perder o equilíbrio. Agnaldo tropeçou e caiu na rua. Infelizmente um carro estava passando e o atropelou, mas não parou. Os meninos não se importaram.

Numa ironia do destino, Mário estava descendo a rua quando não deu tempo para frear. Um rápido e violento impacto com a pequena cabeça de Agnaldo o fez sofrer, por pouco tempo. A hemorragia estava incontrolável e pedaços de sua massa cinzenta eram visíveis na rua. A pequena pessoa estava morta na rua, desmerecidamente e inconseqüentemente por garotos ruins. Mário caiu, e se machucou. Pontos por todo o corpo e risadas novamente infames dos garotos o fizeram chorar.

O mundo perdia naquele momento uma grande promessa de pessoa, de gênio. O pequeno Agnaldo, humilde, simples e especial estava morto, desconfigurado e espalhado. Ninguém se importou, pois para muitos ele era só mais um. A família dele e Mário choraram, apenas eles, por uma perda irreconhecível para o mundo, simplesmente pois eles deixaram de o conhecer. Esse também é um dia das bruxas, sem alegria e doces, apenas dores de uma pequena família esquecida, desvalorizada e perdida. O mundo não conheceu Agnaldo pois não deu oportunidade a ele, apenas sabia que ele existia, mas não sabia que ele vivia. Agnaldo, quando vivo, abraçou o mundo e, o mundo, sempre vivo, o acolheu, apenas dentro da terra.

Ninguém mais lembrou dele. Pedro e seus amigos continuaram vivendo. Mário cresceu e a família de Agnaldo sofreu, por anos, décadas, até descobrirem que o melhor que teriam a fazer, era ter feito. Aproveitado seu pequeno e bom filho, que tanto os deu, mas só deles recebeu.

Agnaldo, o mundo não te abraça, mas vejo as cores nas praças, ruas e avenidas, pedindo por alguém como você. Porém, nada disso adianta, já que nem praças, ruas e avenidas tem braços, a dar a você. Você foi especial, mas esquecido, porém jamais esqueceu, que um dia viveu para ser feliz, para construir um mundo que ele já faria parte, mas não o reconheceria. Não chore Agnaldo, não sofra, apenas pense, é assim que irá conseguir.

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11 Comentários on "Outubro, Mês das Crianças"

  • Anninha diz

    Hermínio, admirável sua consciência em relação ao ser humano enquanto ser humano.

    Seria tão bom se todos fôssemos um pouco mais Agnaldo e um pouco menos Pedro & cia.!

    Espero que evoluâmos neste sentido!

    Belo texto.

  • Renata diz

    adorei sua cronica!!!!

  • Renata diz

    adorei todas as cronica!!estão muito criativas!!continuem renovando…

  • Renata Forrer diz

    Como tem 2 Renatas…esse dois comentarios são meus…

  • fernanda diz

    voces nao tem nada sobre o Paulo Coelho?

    eu presciso para trabalho de escola!!!!

  • ahahahahahahah, não sei se foi de propósito mas essa da fernanda foi ótima! É uma clara referência do voltani

  • cade os comentarios das bruxas?

  • ficou uma droga esse saite!

  • ai vcs sao d menos!!

  • As cronicas sao muito grandes,hahahahahahahahahahah!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  • Doida diz

    Este site é uma porcaria!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

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