Erasmo

Depois de anos de glória com os amigos, se divertindo sete dias por semana, Erasmo enfim se sente certo de que a decisão do matrimônio será a melhor coisa de sua vida.Sempre com o seu porte físico invejável, Erasmo, um grande e fiel conquistador, se sente orgulhoso ao imaginar a sua nova vida ao lado de uma só mulher.

Apesar de todo o seu jeito organizado, metódico e conservador, sempre se vestiu muito bem, valorizando seu físico invejável e desejável por tantas outras mulheres. Seu traje, impecavelmente esportivo, era sua marca registrada.

Não foi uma decisão da noite para o dia. O enlace havia sido planejado por um ano, até a tão sonhada hora de oficializar a decisão de não caminhar mais só pela vida, mas sim com uma mulher que o amava. Sabia que tudo seria diferente no seu dia-a-dia e que alguns hábitos deveriam se modificar.

Na chegada da lua de mel, enfim em casa, o casal se sentiu numa casa de bonecas, devidamente decorada, sob medida com os gostos dos dois, muito parecidos nos quesitos de cores e modernidade. A entrada do apartamento foi delicadamente desenvolvida com gesso, assim como todo o teto da sala, e o chão de um mármore quase branco. A sala era dividida entre sala de jantar e uma sala de estar, que tinha no seu centro um grosso tapete branco e num dos cantos um “Home theater”. O quarto do casal foi feito sob medida, com cortinas e móveis claros, que levavam a um closet e, em seguida ao banheiro do casal. Os demais cômodos ainda estavam sob “crus”. Eram mais dois quartos e Erasmo planejava transformar um deles em um pequeno escritório.

Ao colocar as malas no closet do casal, Erasmo ouve o telefone tocar e, rapidamente sua esposa o atende.

– Querido, Mamãe virá nos visitar.

– Bom – sussurrou Erasmo – e quando ela virá?

– Hoje!

– Hoje? Mas nós acabamos de entrar em casa, pela primeira vez! Não seria melhor esperar algumas semanas, até nos ajeitarmos melhor? Afinal de contas, ainda estamos de lua de mel… Tenho mais uma semana de férias e gostaria de desfrutar cada segundo ao seu lado, somente ao seu lado.

– A presença da minha mãe lhe incomoda?

– Não é isso. Ela virá cansada dos 350 km de ônibus, precisará descansar e o nosso quarto de hóspedes não está nem montado.

– Bobagem. Mamãe não nos incomodará. Sabe como ela é, não liga para essas coisas e dorme num colchão. Garanto-lhe, não dará trabalho algum.

Sei- pensou Erasmo.

– Pensa bem, estamos começando tudo aqui. Nem estamos prontos para receber uma visita…

– Minha mãe não é visita, é a minha mãe! Também não precisa pedir licença para entrar na minha casa, precisa?

– Nossa casa! E que horas irá buscá-la na rodoviária?

– Você vai, não eu. Tenho manicure às três horas e ela deverá chegar às quatro.

Para não perder o encanto da tão sonhada vida a dois, Erasmo engole a seco o pequeno sentimento de revolta que começa a tomar conta de seu corpo e aceita o desafio.

Chegando na rodoviária, Erasmo, sem perder a pose, recebe a querida sogra.

– Boa tarde Dona Rita!

– Oi Erasmo. Deixou-me esperando por meia hora, sabia?

– É o trânsito dessa cidade louca. A senhora entende…

– Vê se me ajuda com as malas.

Se acostumando a engolir a seco, Erasmo se dirige à “pequena” bagagem quando nota uma pequena gaiola de tecido vermelho, junto às três malas da Sogra. Com um controle emocional extraordinário, Erasmo virá-se para a sogra e pergunta: a senhora trouxe a Maxixa?

– Erasmo, essa é a minha maior companheira e não incomoda a ninguém. Tenho certeza de que essa pequena cadelinha vai se comportar muito bem na casa da minha filha.

Durante o trajeto Erasmo quase não falou, como de costume, enquanto sua sogra não tinha tempo nem de respirar; falou da vida de todos, com metáforas e exageros incríveis, até chegar à casa do casal.

Mantendo seu jeito gentil, Erasmo se encarregou das bagagens enquanto a sogra se adiantou e subiu ao apartamento, recém inaugurado.

– Dona Rita, nosso apartamento é o 31, no terceiro andar.

Calmamente, Erasmo pegou todas as três malas e também a gaiolinha de Maxixa. Ao entrar no apartamento se deparou com o pé direito do sapato da sogra na porta de casa e o pé esquerdo na porta do banheiro.

Calma Erasmo. Isso durará pouco – tentou se conformar, pensando.

Erasmo deixou as malas no quarto de hóspedes. Ao voltar para a sala se deparou com a sogra debruçada sobre a cama, junto com a cadela.

– Querida? – Chamou Erasmo.

– Oi amor! Você sabe o quanto estou feliz?

– Imagino… Escuta, não me leve a mal, mas eu nem sentei ainda na nossa cama e a sua mãe já levou até o cachorro.

– Não posso proibir minha mãe de entrar no meu quarto! Não acredito que isso te incomoda…

– Não estou falando para proibir nada, só para colocar limites! É a nossa casa, o nosso sonho. Gostaria de pelo menos ser o primeiro a usar a cama, o banheiro… enfim, ter controle sobre as minhas coisas, será que posso?

– Como você é egoísta, seu grosso! Minha mãe jamais te proibiu de entrar no quarto dela!

– Mais uma vez, não estou proibindo nada! E tem mais, se ela deixou ou não nunca nem sequer sentei em sua cama! Eu sei a diferença entre liberdade e educação!

– O que você está querendo dizer, que minha mãe não tem educação?

– Não é isso – falou Erasmo, pausadamente – escuta, estou cansado, chegamos hoje, vamos deixar isso de lado, aproveitar o dia e ter uma noite de amor, para inaugurarmos o nosso quarto?

– Fico chateada, mas vamos deixar isso de lado e aproveitar nosso primeiro dia em nossa casa.

– Ótimo – conclui Erasmo, engolindo a seco pela terceira vez no dia.

– Só que tem uma coisa…

– O que foi?

– Sobre a nossa primeira noite de amor, acho que vamos ter que adiar…

– A não me diga que sua mãe tem medo de dormir sozinha…

– Imagina, Mamãe dormirá no quarto de hóspedes.

– O que foi então, já está cansada?

– Na verdade, estou recebendo uma outra visita…

– Quem, uma tia, irmã, o que? Fala logo! Não me assuste com esse suspense!

– Não queria lhe falar, mas…

– Mas??

– Fique menstruada.

– É só isso? –Sussurrou Erasmo, aliviado.

– É. Aliás, não queria te pedir mais um favor, mas vou ter que pedir.

– Sim…

– Não posso deixar a Mamãe sozinha assim, sabe como que é, a primeira vez em nossa casa… será que você poderia ir comprar absorvente?

– Claro! Sem problema algum.

Ao chegar no supermercado, Erasmo se deparou com um corredor inteiro de absorventes. Diversos modelos e tamanhos, cada um com o seu recurso especial. Após uma olhada superficial, pegou uns seis ou sete com características diferentes: com abas, sem abas, com gel, sem gel, interno, externo e noturno. Não hesitou em ligar para a esposa:

– Alo, querida?

– Sim, amor.

– Viu, que tipo de absorvente você usa?

– Com gel e abas grandes?

– Grandes? – Respondeu ele, assustado.

– Sim, grandes.

– Ok, era só isso? Já estou levando.

– Espera! -Gritou a esposa. – A Mamãe esqueceu algumas coisas. Será que você pode trazer?

– Claro… – Suspirou Erasmo.

– Presta atenção: uma escova de dente, um xampu para cabelos secos e pintados, um refil de lâminas de depilação feminina, um desodorante com cheiro de algodão e rosas, um esmalte rosa e também um óleo de amêndoas. Ah, também precisamos de tinta para cabelos na cor caqui holandês.

– Só isso? – Perguntou ironicamente Erasmo.

– Sim. Obrigado querido!

Praticamente não teve dificuldades, a não ser com a tinta de cabelos. Encontrou uns sete tipos de caqui, mas nenhum era holandês. Aproveitando a presença da moça que estava fazendo demonstração do produto, perguntou: qual a diferença entre o caqui holandês e os outros?

– A cor! – Respondeu, educadamente, a moça, com um sorriso brilhante num gesto absolutamente gentil.

Com uma educação revoltante, Erasmo agradeceu a gentileza da moça, porém a óbvia e sucinta resposta de nada lhe adiantou. Erasmo fechou os olhos, girou o dedo indicativo e escolheu o caqui que iria levar.

Chegando ao caixa, Erasmo começou a organizar todos os produtos femininos na esteira e, por ironia do destino, deixou praticamente escondido o pacote de absorventes. Enquanto o casal que estava na sua frente na fila terminava de passar suas compras, três adolescentes, meninas, chegam com chocolates, esmaltes, doces, etc. Não demora muito, as três começam a cochichar, rir e olhar de canto de olho para Erasmo e suas compras.

Era só o que faltava, além de tudo, fazendo papel de bicha na fila do supermercado – pensou Erasmo, ficando extremamente irritado e envergonhado com a situação. Suas compras começaram a ser passadas enquanto as três adolescentes já não deixavam mais de serem discretas.

– Senhor, a compra deu cinqüenta e dois Reais e trinta e sete centavos. Deseja algo mais?

– Não, obrigado. Mas alguma coisa está errada. Veja só o último item de sua lista…

– O esmalte rosa?

– Esse mesmo! Na gôndola estava por dois Reais e alguns centavos, não sete Reais!

– O Senhor aguarda só um momento, por favor, que vou chamar meu supervisor.

– Ok.

– Jeremias!? – Gritou o caixa em direção ao supervisor que acabara de passar em frente ao caixa.

– Fala Tadeu!

– Esse senhor falou que o esmalte rosa está com o preço errado.Pode verificar, por favor?

– Claro! Lurdinha!? – Gritou o supervisor a uma funcionária que estava passando pelo final da fila desse caixa – Pode, por favor, verificar o preço do esmalte rosa a esse senhor.

– Claro! Senhor, o esmalte que precisa é rosa ou pink?

– Rosa – respondeu Erasmo, discretamente.

– Perdão, não ouvi senhor. O senhor quer o rosa ou o pink?

– Rosa! – Respondeu Erasmo com a sua paciência chegando ao fim, nessa mesma hora que uma das adolescentes achou melhor deixar o local para rir mais à vontade.

Minutos depois, a funcionária chegou com o produto, numa forma nada discreta.

– Senhor, está aqui o seu esmalte rosa! – Falou em tom alto.

– Obrigado – respondeu Erasmo num tom de voz que só sua consciência chegou a ouvir.

Finalizada a compra, Erasmo saca seu cartão de crédito, ironicamente rosa, para o pagamento.

– Senhor, o cartão está sendo recusado.

– Impossível, ele está em dia! – Retrucou Erasmo.

– Deve ser a tarja magnética. Jeremias pode, por favor, passar esse cartão no caixa central, por favor? Parece estar com problemas! – Pediu Tadeu, o caixa, levantando o cartão de Erasmo, para que sua vergonha chegasse ao ápice, assim como o delírio das adolescentes.

Erasmo, depois de suspiros e longas bufadas foi ao caixa central onde tudo foi esclarecido.

Chegando em casa, Erasmo abre a porta social e, como num olhar de águia, encontra um pequeno rastro de fezes de Muxixa no carpete.

– Querida, cheguei!

– Oi amor, como demorou!

– Pode me dizer o que é isso, no nosso carpete novinho?

– Ah Erasmo, como você é fresco! Só falta dizer que não caga! – Intrometeu a sogra, já ficando mais à vontade.

Erasmo já tinha perdido as contas de quantas vezes havia engolido a seco em seu primeiro dia no novo lar. Sem responder a ninguém, foi tomar um banho.

Banho tomado, roupa vestida Erasmo volto à sala onde encontrou o carpete impecavelmente limpo, ser marca alguma da cadela. Ao se dirigir à cozinha notou um montinho de papel de revista amassado, com a possível sujeira do cachorro, agora limpa. Passos a diante, encontrou um chão forrado de folhas de revistas na área de serviço, para que a cadela pudesse, enfim, fazer suas necessidades em paz.

– Tive que providenciar um “banheirinho” para a Muxixa, já que você é tão fresco, Erasmo!

– Que bom Dona Rita…

– Não se preocupe que da minha cadela cuido eu! Peguei algumas revistas encaixotadas no quarto que vou dormir, para forrar o chão daqui.

Erasmo, em menos de um segundo, começou a suar frio, ao lembrar que as revistas até então encaixotadas eram a sua coleção completa de “Super Interessante”, algo que ele tratava com muito carinho desde a infância.

Ele não conseguiu abrir a boca, ainda estava em estado de choque e assim ficou até a hora do jantar, aonde não abriu a boca, até a sua sogra sugerir:

– Querida, como o seu marido é estranho!

– Desculpe – retrucou Erasmo – só estou cansado.

Imaginado um fim de noite tranqüilo, Erasmo convidou gentilmente as duas para estrear o Home Theater. Ele mesmo preparou a pipoca e gentilmente serviu refrigerante a todas. Até colocou um pouquinho de comida num potinho para Muxixa.

O filme começou a rodar e, depois de uns vinte e cinco minutos, quando a trama estava em seu momento inicial mais importante, sua sogra solta um infeliz comentário em alto e bom tom:

– Filha! Esqueci de te contar uma coisa! Sabia que a sua Tia Dolores foi parar no hospital essa semana com pedras nos rins?

– Não é verdade? – Surpreendeu-se a filha.

– Juro! Quase partiu dessa! Foi um horror.

Erasmo, sempre muito entretido com o filme, como sempre, passou por cima de todo o seu controle e dessa vez soltou a seco:

– CHEGA! SERÁ QUE DA PARA CALAR A BOCA UM POUCO E PRESTAR ATENÇÃO NO FILME, OU IR CONVERSAR NO QUARTO?

Por um momento a sala ficou em silêncio humano, somente com o efeito sonoro do filme. Não foi por muito tempo a sogra se soltou:

– Falei para não casar com esse traste! É um maníaco, histérico e maluco! Estou indo embora!

– Não mãe, fica!

– Não dá! A presença do seu marido é insuportável e a convivência com ele é difícil! Ele é espaçoso demais! Depois de vir calado da rodoviária, não abrir a boca na janta e trazer um tom de caqui errado, está tudo claro, ele me odeia e só quer me provocar!

– Você é um grosso mesmo! – Soltou a esposa – Não saber conviver com ninguém!

– Você está louca? – Respondeu Erasmo.

– Louca nada! Se em um dia nossa convivência está assim, quem dirá com o passar dos anos!!

– Mas querida…

– Mas nada, por mim deu! Você só reclamou o dia inteiro… não dá para viver do seu lado, seu egoísta, egocêntrico e metido! Quando parar de pensar só em você, quem sabe descobrirá o que perdeu!

Rapidamente as duas se foram e Erasmo, agora indignado e solitário, só queria saber se tudo o que vez e planejou para uma vida a dois teria mesmo algum sentido ou ele era o errado da situação.

Triste fim de um casamento que nem começou. Erasmo, o mais respeitador e conservador dos amigos, aquele que jamais tolerou traição se vê acuado entre a vida levada a sério, como um homem de respeito e sério e entre aquele eterno malandro, safado e falso, que leva a família da esposa no papo, é querido por todos e, no fim de cada dia, ri nas costas de todos.

Sem muito mais a pensar, soltou um estrondoso berro antes de fechar a casa e voltou à casa de seus pais, com todos os seus princípios remoídos por dentro e por fora.

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7 Comentários on "Erasmo"

  • José Ignacio diz

    Puxa, como dá raiva da família do Erasmo! Eu me identifiquei com ele em vários aspectos. Que isso sirva para as pessoas aprenderem a ser menos invasivas!

  • Rafael.... diz

    O melhor, sem dœvida…..

  • Tadinho do cara …. mesmo.

  • Fabio Felippe diz

    “Qualquer semelhança com pessoas, fatos ou acontecimentos reais terá sido mera coincidência”.

  • Giallo diz

    Perfeito!

    a inversão do jogo é típico das mulheres que, de vez em quando, nos fazem crer estar errados.

  • malena diz

    coitaaaaaaaaaado!

    q raaaaaaaaaaiva!

  • Lia diz

    Que ódio da velha! E pior ainda é a mulher que não pensa nenhum minuto como uma casada, e passa por cima das vontades do marido, pq ela não casou com a mãe?

    Idiota hahaha

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