Heléxia

Hélio era um amigo meu. Um tanto quanto confuso confesso. Confúcio é um nome que continuaria a aliteração. Mas voltando ao Hélio, depois de sua mãe levá-lo a diversos médicos, psicólogos e curandeiros foi descoberto que mais do que confuso ele tinha uma doença muito particular. Tão particular que acabou levando o nome de Heléxia. A Heléxia era, basicamente uma disléxia em estado grave e constante. Em vez de inverter a ordem das letras ou sílabas ele invertia ou mudava completamente os segmentos da frase. Não por distração, por Heléxia.

Antes de Hélio ser esse homão que é hoje seus pais desconfiavam que ele teria uma doença típica da periferia das principais cidades brasileiras: Piripaque. Possibilidade logo abandonada quando constataram que o garoto não possuía o sintoma principal do piripaque, o troço. Hélio tinha Heléxia, e o coitado não conseguia nem pronunciar o nome de sua própria doença.

Hélio apesar da doença era um garoto super saudável, era o melhor ponta de lance do colégio. Capitão de liderança absoluta. Mesmo com sua deficiência se dava muito bem com o time. Os zagueiros já sabiam que tinham que recuar a bola quando ele gritava:

-“Devolve meu caramujo, Devolve meu caramujo.”

Na maioria das vezes a bola era o caramujo. Todos do time melhoraram em interpretação de texto depois de jogar com Hélio.

Mas nem todos eram tolerantes como o pessoal do time. Hélio se meteu em algumas enrascadas por seu probleminha. A maior aconteceu na flor de sua puberdade.

Como todo rapazote da sua idade, quando Helinho fez dezoito anos foi se alistar no exército. Lógico que como todo rapazote de sua idade Helinho não queria ser soldado. Como ele próprio dizia, “Se for pra defender meu país que comam creme de leite”. Mas o dever do alistamento tinha que ser cumprido. Logo de madrugada Hélio se levantou, deu boa tarde para os pássaros e tomou o rumo do quartel. Já pelas redondezas parou num posto para se informar:

– “Você sabe onde eu posso pescar um robalo?”

Infelizmente os frentistas não entenderam, mas Hélio conseguiu achar. Logo se posicionou na fila da letra H, o sereno ainda caía e ele tinha esquecido a blusa. Ok. Algumas horas depois chamaram o seu nome. Hélio levantou e correu em direção ao Sargento Torres. Com olhar prepotente o sargento começou o questionário.

– Qual é o seu nome?
– Hélio.
– Hélio do que? Você não tem família?
– Tenho sim senhor. Hélio Rubens de Mello.
– Qual sua desculpa pra não servir o nosso País “peixe”?
– Na verdade eu tenho Heléxia.
– Que diabos que é isso garoto? Você está ousando zombar da minha cara no meu quartel?
– Que é isso sardento. Eu só comi seus ovos pela manhã.

Depois dessa sentença a história como você pode imaginar piorou bastante. Demoraram sete dias e sete noites para Hélio sair da prisão e de lá foi direto para o alojamento do quartel. Um ano servindo a pátria foi suficiente para Hélio ser um grande amigo do Sargento Torres e para ganhar o apelido carinhoso T.F.D.P (torto filho da puta).

Depois do serviço militar Hélio mudou muito, decidiu que não queria mais ser um ser integrado da sociedade. Gritou alto pra quem quisesse ouvir:

– ” Eu mudei e agora não vou mais fazer tricô.”

A última vez que eu o vi estava em um dos bares da moda cercado de mulheres, tinha um olhar diferente, parecia estar curado, talvez o exército tenha feito bem pra ele mesmo. Levantei da minha mesa. Já estava de saída e passando pela mesa de Helinho o ouvi com seu carisma inerente fazendo um perdido para garçom:

” Por favor, me trás uma almôndega com gelo e limão.”

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4 Comentários on "Heléxia"

  • Uma coisa vem à minha mente… essa pessoa existe? É um membro conhecido da sociedade ou apenas é fruto da sua fértil imaginação, kris?

    Eu acho que, mesmo comendo almôndegas com gelo e limão, não dá pra inventar uma história dessas. Você vai dizer o nome verdadeiro do caramujo ou não ???

    eheheheeehe….

  • Paulo diz

    Meu, ficou muito coca!!

    Dei várias risadas!!!

    ps: Volpa, acho que todo mundo se sentiu com Heléxia no dia do alistamento. Nao importa o que vc diga, os caras querem é uma desculpa!!

  • Kris diz

    É o meu amigo invisível…hehehe

  • Rafael diz

    “PUTA Q. P. essa panela ficou ótima com sotaque francês”.

    Cara, a cada dia que passa é mais um dia que foi, parabéns, ficou ótima. Me diverti muito lendo isto…hehehe

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