Bang!

Assim começou o filme da sua vida. Primeiramente viu-se ainda garoto, mãos sujas de barro, kichute no pé, correndo, sorrindo, atrás da bola, sempre a bola. Uma criança. Passou pela bomboniére da Dona Luzia, cruzou para o Luizinho. Gol. Ninguém reconhecia a assistência no futebol.

Ainda criança mais uma vez em sua antiga casa perto da estação Bresser. Vivia na rua mas dessa vez estava dentro da casa. Na sua a frente a figura autoritária de seu pai. Ele dava uma bronca por uma vidraça quebrada ou algo assim, ele se lembra disso mas não claramente, lembra que havia ficado fulo da vida, tinha sido sem querer, mas pela primeira vez tinha conseguido enxergar doçura e preocupação no olhar de seu velho.

Adolescência. Ele estava numa festa do colégio, viu a garota por quem ele e seu melhor amigo eram apaixonados, de canto ela fazia charme para seu amigo, com seus típicos, porém fatais, truques. Viu o seu amigo olhar para ele e rapidamente correr pela tangente, fato inclusive estranhado pela garota. Ele sabia que o seu amigo estava com medo dele ficar bravo por estar paquerando sua pretendida, mas não, seu amigo apenas estava dando espaço para ele conseguir o que tanto queria.

Conseguiu. Sua esposa herdada dos tempos do colégio foi o que assistiu a seguir. Seu casamento, a primeira vez em que chorou compulsivamente. Na frente de todos mostrando sua gratidão por receber tamanha graça. Viu sua mãe chorando de felicidade e tristeza, mal sabia ela que ele sentia o mesmo.

Um campo de futebol, de terra batida, time de sem camisa contra com camisa. O placar estava dependurado no alambrado. Mas não havia placar mais bonito no mundo. Marcava um gol. De seu filho, que comemorou radiante como prometido ao pai. Ele. Chorou pela segunda vez, mas dessa vez escondido. Não podia envergonhar o filhão. Papai é macho.

O último ato foi a apenas alguns segundos, ele voltava da missa com sua esposa, entrou na garagem, ouviu um barulho na cozinha e estranhou já que o filho estava na casa da Vó, foi ver o que era. Bang!

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1 Comentário on "Bang!"

  • anninha diz

    O texto está realmente mto bom. Gostei mto!

    Gostei dos detalhes que remetem-nos pra dentro de uma realidade diferente da que a gente vive, mas nem tanto…

    Dos símbolos de cada época da vida e das mudanças que vão acontecendo ao longo da história da personagem.

    Me surpreendeu um texto que caminha tão light e gostoso ser ao mesmo tempo tão “pesado”. Como um “bang” pode mudar tudo, né?!

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