Imaginário popular

Só pode estar me traindo. Porque numa boa, essa história de “happy hour” eu não engulo. “Happy”? Não tem que ser “happy” coisa nenhuma. Trabalho é trabalho. Vamos lá fazer nossos deveres, tomar bronca do chefe e na melhor das hipóteses tomar um café depois do almoço com o Orestes, da contabilidade.

“Happy”? Só se for o dela. E se é tão feliz assim só pode estar me colocando um belo par de chifres. Há tempos que eu venho observando. Ela vive falando daquele tal de Rogério, Rômulo sei lá. Ok. Não tem falado tão frequentemente. Talvez tenha mencionado umas duas vezes. Mas temos que manter os olhos abertos não é? No mundo de hoje, vacilamos por um momento e tá lá. Na nossa cara. Nossa desmoralização. Fomos corneados.

“Hour”? Porque que tem que durar tanto. Ela não me liga. Já faz exatamente 15 minutos que ela me ligou. Deve estar muito entretida lá com o Rodrigo. Papo vai, papo vem, uma mão aqui, outra ali e PAM. É assim que funciona. Sei como é. Já fui solteiro. A gente não perdoa.

Será que esse cara é daqueles bonitões? Não. Sou mais eu. Mas ele deve ter um carrão. Só pode. Para impressionar a mulher dos outros. Fica se gabando dos bancos de couro pra levar mulher alheia pra cama. Ou pra qualquer outro canto mais próximo. Já vi nos filmes. Não sou bobo. O cara passa a lábia, queima meu filme, se aprochega e PAM. Estão lá os dois se afonhicando no banheiro do bar.

“Bar”? Porque não fazem o tal “happy hour” (happy???) num lugar mais adequado. Na Igreja por exemplo. Isso sim é útil. E sério. Todos juntos numa só oração. É sinergia. Mas não. Eles gostam é da promiscuidade.

Vinte minutos já e nada. Ah esse Ricardo é muito cara de pau. Fica pegando minha mulher. Ela nem deve pensar em mim; ou melhor, pensa sim: “Ai se meu marido descobrir!”. Por isso deve gostar mais ainda. Do perigo, do proibido. Deve falar que não temos a mesma tensão sexual de antigamente, que não tenho mais aquele furor. Mas a culpa não é minha. Poxa, ela sabe como o meu trabalho anda estressante. O que aconteceu ontem não vai acontecer sempre. Não é porque aconteceu cinco vezes no último mês que vai ser corriqueiro. Ei de me reerguer.

Duro. Vai ser duro encará-la. Toda prosa, sorriso no rosto, cara de satisfeita. Toda cheia de Renato em cima dela. Safado. Sou chifrudo e tenho que me conformar.

Será invenção? Coisa da minha cabeça? Pode ser. Sempre fui um pouco inseguro. Acho que estou fazendo mal julgamento dela. Independente do cara dar em cima ou não, é nela em quem devo depositar minha confiança. Besteira da minha parte até. Pensar essas coisas. Depois de tantas provas de amor, declarações e compreensão que ela vem me demonstrando deveria botar um pouco mais de fé nela.

É isso aí. Parei com isso. Vou receber ela de braços abertos. Tenho que apoiá-la em primeiro lugar.

Triiimmm!!!

Interfone. Chegou. Pode subir.

– Oi mozão!
– Oi queridinha. Tudo bem?
– TUDO ÓTIMO!
– Como foi de “happy hour”?
– Nossa. Foi uma DE – LÍ – CIA. O Reginaldo te mandou um abraço.

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6 Comentários on "Imaginário popular"

  • José Ignacio diz

    Finalmente publicada a crônica secreta! Já conhecia, e continuo gostando. Muito boa mesmo!

  • Hahahaha, muito boa! Boa e verdadeira, um ótimo ritmo, crônicas boas são essas, que sacam detalhes das relações humanas….

  • Thaís diz

    Sinergia! hahaha. muito boa!

    OK, sua crônica mostra alguns traços de psicopata, mas confesso, as mulheres também são assim, então não se sinta mal!

    mesmo com a loucura toda, ficou muito boa amor! com certeza muita gente vai se identificar.

    TE AMUUU. beijão!!!!

  • Ricardo diz

    MaMute!!

    Demais !! A troca de nomes, pra variar, ficoa boa pra cacete … e vc está certo! Mulher é tudo igual! rs

  • malena diz

    amei! principalmente o DE-LÍ-CIA do final…é de matar qualquer um!

  • Fujii diz

    hahahahhaa……já dizia o meu sabio ancião “mestle”: “muié é foda!”

    elas provocam reações estranhas na gente!

    Muito boa kriss!

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