Eu te amo! (e nem vou cobrar nada por isso)

O sexo vende. E muito. Milhões de sites de internet e a Rede Globo sabem muito bem disso. Mas e o amor? Não seria um produto negligenciado?

Depende do tipo de amor. Temos claramente dois tipos de amor. O amor clássico é aquele legítimo, que faz rir, chorar, que abre a porta do carro e vai no estádio de futebol mesmo sem gostar. O outro é o verbalizado, aquele que é apenas falado, sem significado necessário, que decepciona, dá esperança, esquece de ligar e finge que está dormindo.

O Amor, assim verbalizado está em alta, e o amor legítimo está em falta. Ainda que Adam Smith tenha nos mostrado que quanto menor a oferta maior a procura, o amor legítimo está tão ausente que já se tornou um tipo de lenda urbana.

– Sabe o Rui?
– Que Rui?
– O Rui, primo do Claudinho.
– Claudinho….
– Aquele amigo da Mari, gordinho que usa dockside.
– Ah sei.
– Os pais deles são casados há 50 anos e ainda se amam.
– Você os conhece?
– Não, mas a Fê, irmã da Mari disse que já os viu uma vez.

Como quem compra guia de cidades as quais nem sabe se vai visitar , as pessoas se conformaram com a verbalização do Amor, com a oferta de uma promessa de algo que não acontece, mas não deixa de ser desejado Amor como diria o povo, vende igual pão quente.

O mercado é amplo. Historicamente, as mulheres são compradoras em potencial e os homens vendedores. É verdade que o mercado mostra uma tendência de inversão dos públicos. A troca é constantemente praticada também. Ainda que nem sempre os negociantes cheguem a um acordo:

– Pati, eu esperei muito pra dizer mas acho que é a hora.
– O que Michel?
– Eu te amo!
– …
– …
– Eu amo passar tempo com você.

O mercado é muito promissor. As aplicações são infindáveis. O produto tem atributos indiscutíveis. Não é perecível.

– Você me ama môr?
– Claro bebê.
– Quanto você me ama?
– Te amo pra sempre bebezinha, agora faz minha massagem.

Tem grande potencial no atacado.

– Mas você disse que me amava.
– E amo.
– E porque tava beijando aquele cara.
– Porque eu amo o Júlio. Mas também te amo Té. Você não acredita que é possível amar duas pessoas ao mesmo tempo?
– Não!
– E o que você me diz daquele nosso menage, então?
– Errr….é…!?

O mercado paralelo também se aquece. Genéricos e similares são bem cotados no mercado. Diversifica-se para se atingir todo poder de compra. Por uma pechincha se consegue um “Gosto de você”, num investimento razoável pode-se obter um “Te adoro muitão” e apostando um pouco mais alto se fatura possivelmente um “Te adoro muito-muito-muito-muito-infinito”.

– Mas já?
– Acha cedo?
– Aliança depois de dois dias cara. Acho rápido demais.
– Eu também achava. Mas depois do que ela me falou.
– O que?
– “Te adoro um montãozão”. Isso é bastante né?

Ainda existem poucos puristas que acreditam no legítimo amor, que invariavelmente se tornarão um grupo altamente restrito (algo parecido com os fãs de Star Trek). Não vendem seu Amor verbalizado nem pelas causas mais nobres.

– E aí, já transou com ele?
– Não. Tá doida? Ele nem disse que me ama ainda!

Observando tudo isso podemos projetar o Amor como a mercadoria do futuro. Quer premiar? Dê Amor. Não sabe onde investir? Ações de Amor. Chega sua fatura do cartão de crédito. Você olha seu programa de milhagem: “Parabéns, até esta data você acumulou 50.000 milhas, entre em contato com nosso SAC e efetue a troca por uma TV de 29 polegadas, um sistema de Home Theather ou uma declaração de Amor de um de nossos atendentes”. Vão sobrar TVs e Homes.

O Amor estará finalmente na casa de todos que se dispuserem a pagar o preço. Logo, o ser humano não vai ter mais o que buscar, e sem propósito tende a parar, estagnar. O Amor estará banalizado.

– Eu te amo.
– Grande merda.

A esperança vai então residir naquele pequeno grupo restante, a ordem do legítimo amor, ou algo do tipo, com aqueles poemas estranhos e mania de pedir licença podem, quem sabe, devolver nossa esperança.

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8 Comentários on "Eu te amo! (e nem vou cobrar nada por isso)"

  • Thaís diz

    “eu te amo” acaba realmente sendo um ótimo jeito para quem quer conseguir as coisas fácil… hehehe.

    é melhor não se falar eu te amo. quando isso acontecer, os dois já saberão e não será necessário dizer. mas enquanto isso ainda é uma lenda urbana na vida de muitos, vamos deixando que se venda o amor. :o)

    muito bom o texto!

    ** ** ***

  • José Ignacio diz

    Muito bom, Kris! Realmente, a milhagem de amor da população anda muito baixa. Acho que é porque estão procurando a coisa errada, nos lugares errados. Por isso, aqueles como nós, que defendem o amor genuíno, são desprezados pelo mercado. Ô luta!

  • Paulo diz

    You´re on a freaking winning streak here, maluco! Tesão!

  • Profundo,hein?

  • Mafê diz

    Eu ainda acredito no amor… nesse amor genuíno, aquele que dói, mas que recompensa em pequenos detalhes… Ouvir “eu te amo” é mais do que bom, mas concordo com a Thaís, quando é sincero, quando vem lá de dentro mesmo, basta um olhar… ai ai…

    Adorei o texto!!

    Beijão

  • José Ignacio diz

    Putz, os diálogos estão muito engraçados!

  • anninha diz

    fastástico o trabalho das palavra.

    e os diálogos… impagáveis!

    mto bem, moço, mto bem!

  • Rodrigo diz

    Concordo. Eu estou numa campanha para substituir a expressão banalizada “Eu te amo” por outra constituida de mais consoantes, com a profundidade que “LOVE YOU” tinha quando foi criada, por exemplo: Eu Zylisk vc! Ou ainda FYTQ TU! Já tentou falar palavras só com consoantes, é uma loucura…

    ZW ZW.

    RM.

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