Cientistas e Feirantes

Depois de uma longa temporada sem feriados prolongados, chegou a proclamação da república, deliciosamente situada numa terça-feira. Após o longo e tenebroso inverno nada melhor que descer pra praia embaixo de um solzão. Assim, entre muitos, pensaram Doca e Vitinho. Depois das primeiras geladas e algumas calabresas Vitinho perguntou:

– Cadê?
– O quê?
– O baralho.
– Pra que?
– Para colocar na roda da bicicleta e deixar ela barulhenta.
– Hein?
– Pra que você acha? O pessoal vai jogar truco.
– Sei lá onde está o baralho. Pergunta pra quem trouxe.
– Como assim pra quem trouxe? Ninguém trouxe. Você não tem baralho aqui?
– Não.
– Como não?
– Não tendo.
– Como assim não tem?
– Cara, não é muito complicado, fui no mercado olhei para gondola e falei, olha tem baralho pra vender aqui, eu não vou comprar!
– Mas porque?
– Porque o que?
– Porque você não trouxe baralho?
– Não acredito neles.
– Não acredita neles? Como alguém não “acredita” em baralhos?
– O que quero dizer é que acho que baralhos são superestimados.
– Superestimados?
– É. Acho que valorizam demais esses jogos de cartas.
– Você não gosta de jogos de cartas?
– Nhé….não.
– Nem aqui? Assim com os amigos.
– Principalmente com os amigos. “Paciência” até vai, mas qualquer outro jogo que envolva amigos e cartas não aprovo.
– Não faz sentido cara. O legal de ter baralho é poder socializar num joguinho, dar umas blefadinhas, chamar o outro de marreco….
– Então, tudo uma chatice. Prova minha teoria que baralho promove a desunião de um grupo. Somos todos irmãos, uma grande família, toda aquela bichice, daí chega um dia e resolvemos jogar “buraco”, uma canastra aqui, uma sequência ali, até que aparece alguma coisa suja, quando menos se vê, estou batendo sua cabeça contra o portão da garagem.
– Acho que você está sendo um pouco radical Doca. Não ouviu o que eu disse? Blefe? Marreco?
– Justamente, tudo ferramenta de destruição. Terror psicológico. Aquele coringa sempre rindo da sua cara sabendo que em breve você será o próximo dois de paus.
– Você está delirando cara. Vê que nem tem um argumento para o que está dizendo?
– Claro que tenho. Observe os comportamentos numa mesa de carteado.
– O que tem eles?
– Num jogo de cartas existem dois tipos de comportamento, e ambos são prejudiciais ao melhor entendimento do grupo.
– Dois comportamentos?
– Sim dois. Vou te explicar. Existem os “Cientistas” e os “Feirantes”.
– Cientistas e feirantes? Do que você está falando?
– Deixa eu terminar. Os “Cientistas” são aqueles jogadores que ficam quietos. Mudos na verdade. Agem como se estivessem enriquecendo plutônio. Poderiam simplesmente abrir as cartas e vê-las. Mas não. Eles vão puxando-as vagarosamente, uma colada a outra, como se a desestabilidade de um ás de espadas pudesse explodir um pequeno país. Reconhecem as cartas por pequenos pontos na lateral esquerda superior da mesma. Descartam como se estivessem repousando um frasco de nitroglicerina em cima de uma velha lavadora de roupa ligada.
– E os feirantes?
– Os feirantes são os jagadores barulhentos. Geralmente jogam truco, mas arriscam umas partidas de roba-monte, porco e sete-belo. Esses parecem ter deficiência auditiva pois gritam a granel. “TRUCO”, “VOU MIJAR”, “SEIS, SEIS, MEIA DÚZIA É SEIS”, “DÁ DESCARGA”, “OLHA O PATO”. Esses nem olham as cartas. São malandros demais pra isso, sabem a ordem das cartas antes mesmo do baralho ter chegado á mesa, não mexem com alfafa porém fazem “maço”. Mas isso ele não grita, é uma informação surrupiada já sabendo que usar agrotóxicos não ajudaria na sua negociação. Deixa o fato pendurado no palito no canto da boca, malandragem pura. Em certo momento ninguém escuta mais nada, no fim de feira pra deixar claro que carta tem é necessário estampá-la na testa do companheiro.
– …
– Entendeu.
– Acho que sim.
– É simples cara. Por isso não gosto de baralho. Desunião. Brigas. Decaptações.
– Mas cara, se você reparar a maioria dos jogos provoca esse tipo de reação nos participantes. Faz parte da competição.
– Concordo. Por isso gosto de poucos jogos.
– Mas como você é chato cara.
– Não é questão de chatice. Estou prezando pela verdadeira diversão e boa convivência entre meus amigos.
– Tá , tá. Sua casa, suas leis. Já sei. Mas então o que vamos fazer?
– Sei lá, podíamos jogar “WAR”.

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10 Comentários on "Cientistas e Feirantes"

  • malena diz

    ai os tempos da eca dos feirantes jogando truco….

  • diz

    Admirável! Como cronista, você se qualificaria como “cientista” ou “feirante”?

  • Kris diz

    feirante fácil…

  • Eu, Cientista distraído. Demais Kris!! Realmente muito boa de ler e ficar pensando!

  • van diz

    FEIRANTE!!! Com certeza :)

    Muito boa, KRIS!

  • Murilo Boudakian Moyses diz

    Eu sou cientista master! Muito boa mamute!

  • Thaís diz

    Eu sou mais feirante. Grito mesmo. hahahaha.

    te amo amor. beijos!

  • Gabi diz

    Sensacional! E gostei particularmente da frase “aquele coringa sempre rindo da sua cara sabendo que em breve você será o próximo dois de paus”. Cartas são seres vivos!

  • Rafael diz

    “Deixa o fato pendurado no palito no canto da boca, malandragem pura.”

    essa frase é poesia pura!

  • diz

    Vamos marcar um jogo? Cientistas contra feirantes? Quem perder paga as cervejas.

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