Inconsciente

O coração pulando no peito, o corpo estava encharcado, o tecido grudado no tronco como uma camisa de força me impedia de fugir daquilo que estava vendo. Os olhos fitavam mas não conseguiam ver, uma névoa branca translúcida me impedia de ver aquilo que eu sabia que estava acontecendo. Bem ali na minha frente, como se fosse a coisa mais natural do mundo, como se me apunhalassem ás costas olhando nos meus olhos.

Tentei reagir, gritar, bater, chorar. Parecia que nada tinha efeito. Nunca fui de gritar em público, odeio escândalo, mas pego pelo desespero não me controlei, esbravejei o mais alto que podia, ninguém escutou, todos estavam surdos. Apelei para a violência, ainda que nunca tenha sido um bom brigador, era muito estúpido para minha racionalidade. Meus murros passavam no vazio e os chutes acertavam o ar acima da minha própria cabeça. Cansei. Ajoelhei aos pés de meus malfeitores, e chorei. Meu queixo era a foz de um rio de incredulidade. Desaguava forte, como estivesse na época das chuvas, bravas e agitadas as lágrimas juntavam-se a poça de gelo derretido no chão. Eles brindavam a minha desgraça.

Uma hora o choro secou. Restou a dor. O estômago queimava, o coração parecia acorrentado, nada saia e nada entrava. Lá dentro só a mágoa. Precisava me colocar de pé, me apoiando nos próprios joelhos ergui meu corpo molhado. Mal conseguia andar, as pernas bambas me faziam pendular como um bêbado. Da direita para esquerda fui vagando sem rumo, cruzando esquinas que nunca tinha visto, percorrendo ruas que nunca havia conhecido. A exaustão foi tomando conta do meu corpo, não sei se havia se extinguido a força dos meus músculos ou a própria vontade de continuar. Os olhos cerraram e deixei-me despencar.

O coração voltou a pulsar após profunda inspiração. Havia saído da água, recobrei parcialmente os sentidos, não sei como tinha chegado onde eu estava, nem como aquela camisa de força voltou a me apertar. Procurei socorro ao meu lado, mas não havia ninguém. Recobrei a fala. Peguei o telefone disquei os oito dígitos, aqueles de sempre que se tornariam os de nunca mais em questão de minutos. Um último adeus, uma última chance de entender. Ela me atendeu com voz de sono, tranqüila, e logo me coloquei a indagar. O amor pra sempre, os planos de matrimônio, o nome dos filhos. Como havia beijado outra boca, deixado outras mãos a tocarem, outro corpo lhe sentir. Não conseguia parar de falar, as palavras saiam da boca descontroladas, tinham vida própria e tiravam satisfações por mim. Foi aí que ela me disse a única coisa que me faria recobrar os sentidos por completo, que libertaria meu coração e enxugaria minha alma.

– Foi um pesadelo amor, foi um pesadelo.

Subconsciente

Ás 3:27 da manhã, puto da vida, todo suado, ele simplesmente não pode acreditar. Rapidamente pega o celular que estava do lado de sua cabeça, aperta a discagem rápida número 2 e aguarda a sem-vergonha atender…

Ela atende com voz de sono, tranqüila.

– Alô?

Ele prontamente se põe a indagar.

– Isabela como você teve coragem? Não to acreditando no que você fez. E toda aquela história de amor pra sempre que você vive falando? Eu acredito naquela merda toda, meus amigos me enchem o saco falando que eu pareço uma moça quando estou no telefone com você. Falo na frente deles que vou te amar pra sempre e é isso que eu recebo? Tínhamos até combinado que iríamos casar fora da igreja pra não ter que ficar agüentando aqueles sermões chatos. E quer saber de uma coisa? Eu gosto do sermão, das flores e queria casar de branco, que nem imaginei desde garotinho. Mas abri mão disso por você. Ahhh, sem falar nos filhos né, escolhemos os nomes dos quatro rebentos já, Joselino, Joselildo, Josefino e Josemílson. Eu não abro mão de Josemílson de jeito nenhum.

Ele não conseguia parar de falar, as palavras saiam da boca descontroladas, tinham vida própria e pareciam tirar satisfações por elas mesmas.

– Bebela. Eu ainda não acredito que você deixou outro beijar sua boca. Outra língua fazendo chenhenhézinho no seu molar direito. Deixou outra mão dar uma apertada na popa da bunda que nem eu adorava fazer enquanto você ficava no telefone pedindo esfiha delivery. Não quero nem imaginar que ele pode também ter ficado de frique-frique com sua perseguida.

Aos poucos ele vai perdendo o pique e parece querer chegar a alguma conclusão.

– Mas é isso viu Bebelzinha. Só queria falar com você uma última vez, tentar entender porquê tudo isso aconteceu, porquê raios você foi beijar aquele filho de uma égua do Chiquinho. Aquele safado. Gordinho safado.

Ela, ainda calma, toma a palavra pela primeira vez e pergunta.

– Que Chiquinho amor?

Ele, confuso, confabula.

– Chiquinho, do programa da Eliana. Aliás, nem sabia que você conhecia ele, mas vi vocês dois se beijando. Aliás, estranho, parecia que vocês estavam na vila do Chaves.

Ela, como sempre, calma.

– Foi um pesadelo amor, foi um pesadelo.

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3 Comentários on "Inconsciente"

  • Thais diz

    esses sonhos que tomam conta da gente são terríveis!!! dor intensa e descrição fantástica! parabéns! te amo!!!!

  • Thais diz

    sobre a segunda…. sem comentarios. “Outra língua fazendo chenhenhézinho no seu molar direito”?????? HAHAHAHAHAHAHA.

    Adoro contrastes.

    Te amo.

  • diz

    Bota pesadelo nisso!

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