“Ooh, this ti – me…”

Já era hora, o rádio relógio começou a assoviar o riff de Patience dos Guns and Roses. Lentamente ele abriu os olhos, encolhido no lado direito da cama. O resto era dela. Começou a levantar enroscado nos panos brancos. Lençóis, fronhas, colcha. Sentou no limite do colchão, cotovelos sobre o final das coxas, palmas das mãos acolhendo o rosto amassado. Nem olhou para trás, sabia que ela não estava lá, sentiu o cheiro de café com leite vindo da cozinha, ao que parecia. Arrancou-se da cama, abriu a janela, instantaneamente se banhou de sol. Ela adora o sol. Começou a recolher as roupas do chão, só as dele. Sorriu quando viu o retrato sobre a mesinha redonda no canto do quarto perto da cortina. Os três porta-retratos de tamanhos e formatos diferentes iluminados pelo dia mostravam os registros de três viagens diferentes. A primeira, a mais antiga, mostra o casal num apartamento de praia, ele agarrado a ela, os braços entrelaçados na cintura, a boca beijando o pescoço no lado esquerdo, sem camisa, sem vergonha. Ela, cor de maçã, com um chapeuzinho de surfista azul e amarelo, ficam feios em qualquer pessoa, nela perfeito. Ela tem o braço em volta do pescoço dele e o outro esticado segura a câmera.
O segundo retrato é do ano passado, mostra o oposto, uma foto mal composta, os dois estão nos dois quintos inferiores do retrato que, orientado na vertical os prende numa grande nuvem cinza e os sustenta com muita neve. Muita pouca pele a mostra. Juntos pelos braços, ele do lado direito e ela do esquerdo. Atrás, a torre. No terceiro, ela está sozinha. Os dois grandes olhos acinzentados tomam conta do frame, apenas seis meses atrás. Ele acaba se encontrando também, no fundo dos olhos, no meio de sua íris londrina.

O alarme não para de tocar. “Just a litlle patience…yeeeaahh”. Dá as costas para o dia, atravessa o quarto amarelado, pisa nas sombras formadas no chão com leveza, como se não quisesse tirar nada do lugar. Escova os dentes, a dele azul, a outra rosa. Assim com as toalhas penduradas atrás da porta. Enxuga o rosto e segue seu faro. O cheiro de café não passa, está impregnado no seu cabelo, na sua calça. Cruzando o corredor, pisa duro na passadeira desalinhada que ganhou de alguém. As paredes cheias de quadros tortos provenientes de sua fase artística. A sala nem se nota, apenas um amontoado de objetos indefinidos. O que essa mulher tem na cabeça. Não vê a bagunça que fez?

“ Yeah, yeah, well i need you”. Percebe a cozinha quando o chão gela seus pés. O gelo sobe até o pescoço passando pelo estômago e coração. O cômodo está vazio, a louça dorme na pia, ignorando o escândalo dos passarinhos, a mesa, coberta por uma toalha azul e laranja, sustenta um saco de pão vazio e migalhas espalhadas por toda a extensão. No canto da pia um nicho intocado, bem de frente pra janela. Abre a geladeira cheia, tudo vencido, só o pó de café não pereceu. A porta da cozinha fica logo ao lado, ele abre e em seu tapete está uma garrafa de leite. De vidro, daquelas antigas. Ao trazer para dentro o braço descuidado esbarra no canto da mesa. A garrafa cai. Junto, ele.

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7 Comentários on "“Ooh, this ti – me…”"

  • Thaís diz

    nossa, excelente! entrei nos sentimentos dele. sentir saudades é mesmo muito ruim. e você conseguiu passar isso muito bem. parabéns!

    te amo.

    beijos

  • Murilo Boudakian Moyses diz

    Eu hein!

  • Rafael diz

    Experimentação ……..éééé!!!

  • Anônimo diz

    Meu… estou impressionado!

  • diz

    (Esse foi meu também.)

  • malena diz

    esse momento é muito triste mesmo…nossa…muito legal

  • malena diz

    esse momento é muito triste mesmo…nossa…muito legal

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