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Pelos velhos tempos - (10-05-2006)
Tempo houve em que podiam ser chamados de “chapas”. Talvez no mesmo tempo em que tal denominação era ainda usada. A despeito da atual amargor da relação, é inegável o vínculo de uma proximidade passada. Cada um seguiu seu caminho: um, tortuoso e recompensador; outro, curto e nada misericordioso. Um pra cima, outro pra baixo. Mas num desvio de rota o de baixo apareceu lá em cima com um pedido. Pelos velhos tempos.
- Olá.
- Olá, que surpresa sua visita.
- Nunca achei que me receberia.
- Sabes que não sou de guardar rancor.
- Não mais.
- Todos evoluem.
- Até Tu?
- Se pertenço a todos.
- Creio eu que sim.
- Mas diga-me, qual motivo da visita.
- Venho para pedir um favor.
- Os faço com grande prazer àqueles que a mim escutam.
- Não sou dos melhores em absorver ordens.
- Sei bem disto. Mas não ordeno, aconselho.
- Se assim diz.
- Mas diga-me o favor. Quero saber.
- Como se não o já soubesse…
- Sei, por certo, por isso o deixei entrar, mas o favor nunca há de ser pedido antes de sair de sua boca, até então é apenas suposição na qualidade de certeza.
- Tal coisa não existe. Se é suposição não é certo e se é certo não é suposição.
- Deve saber que tenho minhas idiossincrasias.
- Sei bem.
- Mas diga.
- Quero voltar para o Céu.
- E por que isso?
- Me permite?
- Independente de te receber de volta, quero antes saber suas razões.
- Quero voltar porque fracassei.
- Não concordo.
- Com minha volta ou razão?
- Com seu fracasso. Você é reconhecido por todos, tem um trabalho estável e está em crescimento.
- Mas minha taxa de fidelidade é muito baixa. Por minha culpa mesmo, afinal não ofereço nada àqueles que me seguem.
- Eu também não.
- Oferece, sim.
- Nada que sozinhos não possam ter.
- Talvez. Mas o fato é que só vêm a mim os renegados por ti. Não sou escolha.
- Reclamas de boca cheia. Já tentou a mercadologia?
- Fujo dela como fujo da cruz. Uma vez recorri a tal estratégia, mas não me dei bem. A distribuição foi mal feita, o produto não tem diferenciais fortes e o preço é alto. Só tu sabes como lidar com essa gente. Já analisei bem a situação, sou um fracasso.
- Te entendo. Não posso te aceitar de volta, Lúcifer. Ainda que tenhamos uma história e seja eu a compaixão em pessoa, não tenho como.
- Mas por que? Pelo seu amor me aceita.
- Não será possível. Estamos num programa de downsizing.
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