Pelos velhos tempos

Tempo houve em que podiam ser chamados de “chapas”. Talvez no mesmo tempo em que tal denominação era ainda usada. A despeito da atual amargor da relação, é inegável o vínculo de uma proximidade passada. Cada um seguiu seu caminho: um, tortuoso e recompensador; outro, curto e nada misericordioso. Um pra cima, outro pra baixo. Mas num desvio de rota o de baixo apareceu lá em cima com um pedido. Pelos velhos tempos.

– Olá.
– Olá, que surpresa sua visita.
– Nunca achei que me receberia.
– Sabes que não sou de guardar rancor.
– Não mais.
– Todos evoluem.
– Até Tu?
– Se pertenço a todos.
– Creio eu que sim.
– Mas diga-me, qual motivo da visita.
– Venho para pedir um favor.
– Os faço com grande prazer àqueles que a mim escutam.
– Não sou dos melhores em absorver ordens.
– Sei bem disto. Mas não ordeno, aconselho.
– Se assim diz.
– Mas diga-me o favor. Quero saber.
– Como se não o já soubesse…
– Sei, por certo, por isso o deixei entrar, mas o favor nunca há de ser pedido antes de sair de sua boca, até então é apenas suposição na qualidade de certeza.
– Tal coisa não existe. Se é suposição não é certo e se é certo não é suposição.
– Deve saber que tenho minhas idiossincrasias.
– Sei bem.
– Mas diga.
– Quero voltar para o Céu.
– E por que isso?
– Me permite?
– Independente de te receber de volta, quero antes saber suas razões.
– Quero voltar porque fracassei.
– Não concordo.
– Com minha volta ou razão?
– Com seu fracasso. Você é reconhecido por todos, tem um trabalho estável e está em crescimento.
– Mas minha taxa de fidelidade é muito baixa. Por minha culpa mesmo, afinal não ofereço nada àqueles que me seguem.
– Eu também não.
– Oferece, sim.
– Nada que sozinhos não possam ter.
– Talvez. Mas o fato é que só vêm a mim os renegados por ti. Não sou escolha.
– Reclamas de boca cheia. Já tentou a mercadologia?
– Fujo dela como fujo da cruz. Uma vez recorri a tal estratégia, mas não me dei bem. A distribuição foi mal feita, o produto não tem diferenciais fortes e o preço é alto. Só tu sabes como lidar com essa gente. Já analisei bem a situação, sou um fracasso.
– Te entendo. Não posso te aceitar de volta, Lúcifer. Ainda que tenhamos uma história e seja eu a compaixão em pessoa, não tenho como.
– Mas por que? Pelo seu amor me aceita.
– Não será possível. Estamos num programa de downsizing.

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5 Comentários on "Pelos velhos tempos"

  • Thais diz

    hahaha. programa de downsizing. adorei!

    muito boa a crônica. te amo. beijos

  • Rafael diz

    Tantas vezes tentando fazer um texto com deus e o diabo………e ele aí ó lá!

  • Gabi diz

    Muuuuuito bem sacado. Adorei.

  • diz

    Cara, muito boa idéia. Diálogo infernal (ou será celestial?).

  • Deia diz

    genial!

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