Aqui com meus botões

Acordou assim, sem saber porquê, com uma nova compulsão. A partir do momento que abriu os olhos tinha que apertar todos os botões que visse pela frente, uma vez apenas.

Silenciou o despertador no primeiro toque, mas já o ligou na seqüência; na AM, último volume. O barulho era insuportável então pulou logo da cama e foi tomar banho. No caminho pro chuveiro acendeu todas as luzes, aquela urgência em apertar os interruptores parecia a maior de suas necessidades físicas no momento, pior que coceira no ouvido. Conseguiu chegar ao Box, mas antes de entrar teve que ligar o barbeador, o secador de cabelo e até a escova de dente elétrica. Tomou um banho de gato, rápido e frio; afinal, não tem rede elétrica que agüente tanta coisa ligada. Trocou-se e evitou passar por mais cômodos, viu que a medida era necessária após passar pelo home theather, nunca viu tantos ON e PLAY na vida, não queria nem imaginar o que faria na cozinha.

Teria usado as escadas se morasse num andar baixo. Após acionar o alarme e abrir a porta do elevador no meio dos andares, apertou todos os andares, aos trancos desceu do vigésimo-terceiro andar até o terceiro subsolo e aproveitou para conhecer todos os halls de seu edifício.

Engraçado foi ao entrar no carro: lembrou que adorou o modelo pela quantidade de botões no painel. Saiu com todas as luzes e faróis acesos, espirrava sem parar, o ar condicionado no máximo talvez tivesse influência nisso. Ou as janelas completamente abertas. Correu para o escritório. Chamou o elevador para descer e para subir, ainda que quisesse ir para trigésimo-segundo andar. Quando abriu as portas deu graças a Deus, estava vazio. Sabia que seria uma longa jornada. Logo na primeira parada o cubículo lota e não houve um que não estranhou todos os andares marcados, olharam feio para ele que diz “Essas crianças…”. Não convenceu, mas se safou de um linchamento.

Entra no escritório e cruza as salas; os poucos computadores avistados tiveram o alfabeto inteiro digitado, ainda que não fosse possível ver por muito tempo pois tanto o monitor quanto a cpu foram desligados. A impressão era de black-out, os interruptores cruzavam a frente dele e nenhum ficava de pé. Chegou na sua sala, entrou e bateu a porta atrás de suas costas logo após apagar a luz.

Ligou o computador e antes mesmo de aparecer qualquer coisa na tela já o resetou, fez uma ligação para algum americano sem querer, ouviu “hello, hello” por alguns minutos e sentiu que a conta telefônica do escritório não seria das mais baixas. Assim que digitou mais uma vez o alfabeto, viu que tinha um e-mail o convocando para a sala de operações. Era hoje o dia.

Suou frio por todos os trinta e tantos andares até chegar ao térreo, teve tempo para pensar no que deveria fazer, quatro minutos clarearam sua mente para conseguir resolver aquilo, apagou a luz do corredor, não podia entrar na sala de operações daquele jeito, a conseqüência mais branda seria a perda de seu emprego, acionou o alarme de incêndio.

Agora parecia estar controlado: entrou na sala de operações e nem mesmo apagou a luz, era um dimmer, viu um telefone na frente e ligou para o americano de novo, “hey stop calling me, asshole” ou algo do tipo, se aproximou do chefe com calma, não queria fazer movimentos bruscos, a senhora da limpeza havia esquecido o aspirador no caminho, não teve dúvidas ao ligá-lo, não tinha controle de nada, logo visualizou o painel de lançamento. E a contagem regressiva nem havia começado.

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3 Comentários on "Aqui com meus botões"

  • diz

    Putz, que medo. Dr. Strangelove com transtorno obsessivo-compulsivo!

  • Thais diz

    fçdmnfçldngçanfsflgnmasdlfkndslgndslkkfnsdfmdflkmsdfndngndfgldkfgnldfgnd

    desculpe. não resisti de vontade de apertar todos os botões do teclado! hehehe.

    adoro pessoas com TOC.

    te amo. beijos

  • diz

    Pois é, são pessoas TOCantes!

    (ai…)

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