Um lugar melhor

Não tem jeito, uma hora ou outras elas nos confrontarão. São muitas, afinal. Existe um milhão de situações desagradáveis que somos obrigados a viver. Uma entrevista de emprego com vontade de ir ao banheiro, sair pra jantar com uma mulher e esquecer a carteira ou ter esquecido de checar o estepe numa viagem pra Bahia. Mas nada pior que um velório. Eu prefiro morrer a ir num velório. Não bastasse a tristeza de um ente querido, conhecido ou parente falecido, ainda temos que lidar com os delicados pormenores da situação.

Notícia ruim chega depressa, logo, um velório nunca vem em boa hora. Sempre te pega de calças curtas. Sejam as dos shorts do pijama ou da sunga de banho. As chances de o telefone tocar com as más notícias num fim-de-semana que você tirou pra dormir ou num feriado prolongado que viajou são imensas. Nunca soube de um velório que tivesse se passado numa segunda-feira, mais precisamente no dia de reunião de desempenho de vendas. Ninguém bate as botas quando você não bateu as metas.

Independentemente da data, o velório é compromisso obrigatório, inevitável. Ninguém pode fugir da morte. As boas maneiras dizem que condolências devem ser dadas e a homenagem prestada. Uma camisa florida pode não ser bem vista em tal ocasião, então se coloca uma roupa mais discreta, de preferência mais escura, mas não totalmente escura senão pode ficar com aquela cara de enterro. Toma-se rumo segundo informações passadas por alguém que você não tem idéia de quem seja. Já nas imediações, peregrina por três cemitérios diferentes achando que são o mesmo, tendo sorte encontra o certo. Falta achar uma vaga. Impossível. Por incrível que pareça, mesmo com intermináveis muros brancos ladeados por nenhuma guia rebaixada, não há espaço vago. Sem enxergar uma viva alma para perguntar por estacionamentos você acaba achando o pólo de comércio fúnebre. O pólo de comércio fúnebre é composto por três ou quatro estabelecimentos que vivem do movimento dos velórios. Tais pólos são também conhecidos como zonas mistas, únicos locais de um velório onde você pode fazer piadas, comentar sobre o futebol e discutir a novela. Geralmente, o pólo de comércio fúnebre é composto por três tipos de estabelecimento: uma lanchonete, uma floricultura e um estacionamento. Era esse último que você estava procurando, tem uma placa na frente com os dizeres “Vai ao velório??? Estacione aqui!”.

Até então, sem traumas. Porém agora é a hora da verdade, agora é matar ou morrer. O que dizer ao chegar? “Olá, tudo bem?” Melhor não, a pergunta seria um pouco fora de contexto, você já sabe que nada está bem. Além do quê, acho incontrolável a imitação do Paulo Henrique Amorim quando pronuncio essa frase. Que tal “Boa Noite?”. Boa? Onde? Pra quem? Por um acaso o morto levantou? O melhor mesmo é se limitar a um insosso e incompleto “Oi”. Nem alegre, nem triste.

Após uma série de “Ois” e metade das pessoas terem achado que você é um neozelandês que só sabe dizer isso, só falta achar uma pessoa, o falecido. Nem sempre a identificação é clara e a invasão de velórios alheios se torna necessária. Se for míope tem que prestar muita atenção, ás vezes acha que o sofrimento da partida o envelheceu seu rosto em muitos anos, porém na verdade está velando morto alheio. Para evitar tal indelicadeza pode pedir informações. Estratégia arriscada. Uma vez pedi informações a uma senhora e acabei ouvindo 4 horas de lamúrias da família Penedo, tinha perdido a Tia-Avó Gina, foi tão cedo, apenas 104 anos, me chamaram até para a missa de sétimo dia, mas me fiz de morto.

Após ouvir muitas vezes que o pobre coitado vai para um lugar melhor você escuta o anúncio que vão prosseguir com o enterro. O jazigo, obviamente, fica a dois quilômetros do local onde está, fazendo com que você demore quarenta minutos para chegar. Ainda assim parece que os coveiros não tiveram tempo de terminar. Fazem uns últimos ajustes na cova, checam a profundidade, normas de segurança, talvez. Passada uma vida inteira desde aquela ligação com as notícias, finalmente é chegado o destino final de todos. O lugar melhor, embaixo da terra, por mais que soe absurdo já que me sinto mal até no metrô. Depois que o caixão desce cada um sai para um lado, sem lembrar que todos têm que voltar para o mesmo lugar. Todos devem ter parado no estacionamento.

Hora da despedida, um a um vamos nos cumprimentando. Já no fim, ao encontrar aquela pessoa que há tempos não vemos, daquelas queridas que por um acaso não encontramos mais, damos um abraço forte e dizemos: “Bom te ver viu, precisamos repetir isso mais vezes”.

Compartilhe!

5 Comentários on "Um lugar melhor"

  • Rafael diz

    Devo dizer que este texto está mais vivo do que nunca! Parabéns!

  • Thais diz

    “oi, tudo bem?” é o pior… meu deus do céu!

    excelente o texto!

    te amo. beijos

  • diz

    Morri de rir!

  • malena diz

    Nossa. Conseguiu fazer rir com um tema tão fúnebre. Heheheheeheh…E fechou com chave de ouro! Hahahahahah. Muito bom!!

  • van diz

    Eu costumo dizer que os velórios são praticamentos EVENTOS para reunir familiares e amigos sumidos… cruzes que horrível!!! Por favor, não organizem meu velorio. Deem uma festa, isto sim!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *