Libertas Que Sera Tamen

Numa penitenciária lotada algo sempre está por acontecer. Nessa não era diferente.

O clima era tenso. De um lado os detentos, criminosos de todos os tipos, componentes de um microcosmos da humanidade. Do outro lado os guardas, brutos, armados e complexados. Inferioridade é claro.

Neste dia em particular os presos estavam agitados. Era dia de visita íntima. Ary era um dos animados, mas não exatamente por isso.

Ary era veterano, décimo-quarto ano de xilindró por um motivo que havia se perdido no tempo. 14 anos que amargos tinham um mês atrás começado a mudar. Ary voltou a sentir prazer em viver, via um horizonte, uma luz.

Gusmão olhava de soslaio, incólume. Um mês atrás soube o que aconteceria. Se preparou sem que nenhum outro guarda percebesse. Não podia despertar suspeitas, poderia colocar toda a operação a perder.

Chegado o dia, o silêncio dominou o pavilhão central. Detentos longe de suas celas, guardas relaxados. Todos. Poucos eram exceção. Ary era um desses. Silenciosamente tirou um molho de chaves da caixa de descarga, providencialmente fardado como um guarda. Na ponta dos pés se dirigiu as grossas barras de sua cela. Introduziu uma das chaves na fechadura e meticulosamente a girou até o destravamento completo. Empurrou a “porta”que fez aquele aterrorizador ruído de ferrugem. Prendeu a respiração e deu prosseguimento a seu plano.

Seguiu pelo estreito corredor, nunca olhando para os poucos “engaiolados”restantes. Pobres coitados. Desceu as escadas apoiado no corrimão do lado direito, deixando para trás as paredes sujas e cinzas.

Encontrou mais uma porta, a última a superar rumo a seu objetivo. Essa proximidade o deixava nervoso. Chacoalhava o molho que parecia ecoar por todo pavilhão.

Abriu e rapidamente invadiu a ante-sala. Parado no canto, um vulto o esperava. O frio congelou sua espinha. As chaves em sua mão esquerda soavam agora como um mensageiro dos ventos.

O vulto então disse:

– Você tem algo que me pertence.

Ary tentava se recompor.

– Vamos logo, me devolva. Disse o vulto dando um passo a frente deixando o rosto a mostra pelo feixo de luz.

Ary estalou os olhos, petrificados. Engoliu seco e finalmente falou:

-Ai Gu, você me assusta assim.

Logo Ary devolveu a chave e aproveitou o que haviam planejado. Do mesmo jeito que todos os outros presos.

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1 Comentário on "Libertas Que Sera Tamen"

  • Thais diz

    Eu apoio todas as formas de amor. Que eles sejam felizes!

    Beijos

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