Multi-Polar

– Que dia maravilhoso!
– Opa, alguém está animado do nada.
– E porque não estaria? Um dia desses, nesse lugar.
– Eu estou no mesmo mundo que você?
– Está graças a Deus. Cara, é muito bom te ter como amigo.
– Cara, estamos no meio do Centro de São Paulo, o dia está chuvoso e você quase pisou num mendigo há 2 minutos. Quase chorou inclusive.
– Nada disso. Eu não vejo assim. Estamos no meio de onde foi construída a história dessa cidade. Você tem a noção desse privilégio?
– Não sei, pergunta pro mendigo que você quase usou de tapete ali atrás.
– Você só vê a parte ruim. Pense, nenhum de nós temos a liberdade que ele tem. Não sabemos o que é sair sem ter pra onde voltar, sem saber onde vamos dormir.
– Sim mas sabemos onde vamos cagar ao menos.
– Você é um pessimista. Para, vamos entrar nessa loja.
– Qual?
– Essa aqui.
– Curandeiros do sertão? Pra que?
– Ah sei lá. Vamos nos deixar surpreender. Dar chance para que o destino nos leve a lugares onde nunca fomos.
– Temos motivos para nunca ter ido a certos lugares. Esse daí por exemplo parece muito com uma casa de macumba.
– Ah, para de ser chato. Vamos entrar.
– Ok.
– Olha só quantas coisas fantásticas.
– Quais? Só estou vendo uma.
– Qual?
– A saída.
– Estraga prazer.
– E aí já viu tudo? Podemos ir embora e fugir do destino?
– Como assim. Eu vou levar.
– Vai levar o que?
– Um de cada.
– Hein?
– Um de cada. Gostei de todas essas imagens de santos. Acho que são santos.
– Só se for do inferno.
– Peraí. Vou pagar.
– Você não está falando sério.
– Como assim? Não entendo como você não se interessou por nada. É tudo tão interessante. Tão colorido. Cheio de vida.
– Você está de sacanagem. Paga logo e vamos.
– Ok, você me ajuda com as sacolas?
– Todas essas são suas?
– Sim.
– Quantas sacolas tem aqui?
– 22.
– Mas, mas…tá, tá, vamos logo embora.
– Vamos pra onde agora?
– Embora. Antes que você resolva entrar numa loja de bolas de boliche.
– Tem por aqui?
– Não cara, não tem. Vamos logo.
– Que foi cara?
– Nada.
– Sério, você está estranho.
– Deve ser porque estou carregando 11 scolas cheias de imagens de gremlins.
– Não é isso. Você est’puto comigo. Droga é sempre assim, sempre estrago tudo.
– Que é isso, não precisa de tanto drama, na hora que deixar essas tralhas no carro tudo melhora.
– Acabei com seu dia né? Eu sou mestre nisso. Nada que eu faço dá certo. Me desculpa cara, não devia ter vindo.
– O que você está falando cara? Você quem me convidou pra vir aqui.
– É mas não devia. Te chamr para esse lugar sujo e deprê. No que estava pensando. Isso tudo tem que chegar ao fim.
– Você está pirando.
– É sério. Você é meu amigo de verdade.
– Claro que sou.
– Então vai me ajudar. Leve essas sacolas pra mim em entregue para minha mãe, fala que foi a última coisa que comprei, que deixo pra ela.
– Que que você está falando. Não vou levar essas estátuas de guaxinim sozinho não.
– Por favor cara. Eu te peço. É meu último pedido.
– Como último pedido?
– Chegou minha hora. É aqui mesmo. Vou me atirar do viaduto do chá.
– Pára de bobagem cara. Não exagera. Se você se arrependeu de comprar os gafanhotos voltamos lá pra devolver. As coisas não são tão difíceis assim.
– Olha.
– O que?
– Como é lindo o Theatro Municipal.
– Hein?
– Vamos entrar pra ver um concerto?

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2 Comentários on "Multi-Polar"

  • Thaís diz

    Todos nós temos um pouco de multi polar. Não se preocupe.

    Beijos

  • willl diz

    fsdfasd

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