A Cinderella do Grajaú.

Depois da odisséia do Príncipe Encantado para achar a dona do famigerado sapatinho de cristal, as coisas estavam tranqüilas no Reino. Cinderella, a nova princesa do pedaço, era amada por todos os súditos, com seu jeito simples e sua cultura doméstica conquistava a todos, deixando para o Príncipe a tarefa árdua de comandar o Reino próspero.

O casal ia de vento em popa, Cinderella permanentemente encantada com o charme do Príncipe, que mesmo após batalhas sangrentas valsava religiosamente com ela toda noite no Salão Nobre do Castelo. Ela sempre ficava apreensiva quando chegava a meia-noite, achava que seu sonho acabaria. Ele a tranqüilizava, massageava seus pés após o dia duro em que ela fazia questão de arrumar todos os 74 aposentos reais. Velhos hábitos não morrem.

Pouco a pouco, do encantamento passaram a profunda admiração. O Príncipe babava pelo charme suburbano de Cinderella, aquela coisa meio Grajaú que a princesa exalava. Justo ele que sempre foi um playboyzinho enjoado. Acabou enfeitiçado pelo jeito da modesta Cinderella.

Cinderella não se acostumava com todo aquele luxo. Tanto ouro pra lá e pra cá, achava incrível como seu Príncipe estava sempre impecável, fosse para uma cerimônia monótona da corte ou para uma pelada contra os Duques do reino vizinho.

Não se agüentando de tanto amor, os pombinhos começaram a andar pra cima e pra baixo juntos. Pra que sentir saudades se podiam ficar o tempo todo juntos? Ele adaptou uma garupa em seu cavalo para que ela pudesse o acompanhar em suas batalhas. Ela arranjou um balde extra para poderem limpar as janelas do castelo “coladinhos”. Era tudo alegria.

Mas como em todo conto de fadas, uma hora o feitiço de quebrou. Depois de algum tempo, o Príncipe viu que suas performances nas batalhas estavam prejudicadas pelo peso extra, além de adquirir um bico de papagaio infernal. Cinderella já não agüentava mais ver o Príncipe colando a boca e assoprando contra os vidros pra fazer graça para os criados.

O desgaste se refletiu no casal, trocavam olhares como não se conhecessem mais. O Príncipe deixou de andar engomado depois que percebeu como era difícil tirar e colocar a armadura para a faxina “castelal”. Cinderella no entanto começou a se empetecar toda, tinha que estar bonita para os desfiles da vitória. Ambos não tinham mais pique para as valsas noturnas, ora era Cinderella com dor de cabeça outra era o Príncipe concentrado para alguma guerra.

Tinham que tomar uma atitude drástica. Chamaram a fada-madrinha é claro.

Ela, que havia acabado de chegar de umas férias em Miami Beach, não precisou mais de dois minutos para resolver a questão. Mandou Cinderella passar uns tempos na casa da madrasta enquanto o Príncipe viajava para uma batalha ao norte.

Após alguns dias se encontraram no Salão Nobre do Castelo. Ela havia recuperado seu charme “rodriguiano” se apresentando com um esfregão nos braços, ele, impecável, trazia em sua mão direita a cabeça do rei dos Felcos.

Ela tirou os sapatos como se pudesse flutuar por alguns instantes. Ele arrancou o elmo como fosse sua própria pele. E valsaram felizes para sempre.

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1 Comentário on "A Cinderella do Grajaú."

  • “Cinderella já não agüentava mais ver o Príncipe colando a boca e assoprando contra os vidros pra fazer graça para os criado” … hehehehe Gente boa esse Príncipe! hehe

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