A Ranger Amarela

Sempre me apeguei a meus carros. Não pelo lado material em si e sim pelo sentimental. Tudo que passei com eles, os momentos de amor e ódio, as noites estreladas e as quase enchentes. Tantas vezes em que achava que o danado ia me deixar na mão, morrendo no meio de uma cidade em caos e ele resolve pegar mais uma vez. Relevando o fato de eu ser negligente em algumas revisões.

Mas sempre passo pelo mesmo drama. Esse mundo capitalista não permite que eu tenha vários carros. Me obriga a vender um, ás vezes meio sem vontade, para comprar um novo. Ainda que eu saiba que com o novo vai ser muito legal, não perco o sentimento pelo que vendi. Afinal, tantas histórias. Mas o que tem que ser feito tem que ser feito.

Tive uma Ranger amarela. É, amarela. Foi um dos carros que mais gostei em toda a minha vida, e olha que ficamos juntos apenas 8 meses. Mas que 8 meses. Fomos pra Barretos juntos, vimos o sol nascer em Franca, participamos (e ganhamos) de campeonato de som em Itararé e choramos ouvindo “The Dance” em Piraju.

Um dia ela me deixou na mão, e seduzido por um carro mais novo, cheio de tecnologia, zero kilômetro, acabei me separando da minha paixão. Seguimos nossos rumos, com meu novo carro não tive muita sorte. O bati quatro vezes em três meses, sendo que destes três,  um ele ficou na loja de som. Ela eu não sei se teve melhor sorte, nunca mais a vi, sobraram as fotos e uma chave reserva, só para eu achar que ainda poderia dirigi-la, mas saber que já a tinha perdido.

Desde então ando apreensivo pelas ruas, já tive vários carros bacanas, gostei muito de diversos deles, inclusive encontrando-os de vez em quando. Mas a Ranger não, uns amigos meus diziam tê-la visto, outro sabia onde ela ficava guardada, mas eu preferi não saber de nada. Como seria quando a reencontrasse? Como eu reagiria? Será que todos aqueles sentimentos aflorariam? Será que a realidade me jogaria na cara a besteira que fiz em não ter a tratado direito? E pior, como seria ver um novo dono dirigindo a MINHA Ranger? E se ele fosse um maloqueiro que colocou uns pneus ridículos na coitada, que impossibilitada, aceitou sem ver o que estava acontecendo? Seria demais pra mim.

A tensão é inevitável, numa esquina ou outra posso dar de cara com ela, e tudo que mais temo pode acontecer, mas torço para que isso não aconteça, me engano que ela está velha e enferrujada, que alguém a tenha pintado de um entediante preto, ou que ela tenha sido vendida para outro estado. Mesmo sabendo que do jeito que ela foi pra mim sempre vai ser. Enquanto isso espero a próxima troca de carros, quem sabe o próximo supere a lendária Ranger Amarela.

Compartilhe!

2 Comentários on "A Ranger Amarela"

  • Eu iria comentar uma coisa, mas acho que não.

  • Vamos ver se esse trem está funcionando mesmo…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *