De mãos dadas.

Era um pátio sujo, praticamente vazio, um pouco de feno desarranjado em um canto, apoiado na parede sem janelas ou portas que um dia foi bege, hoje faz um horrível degradê de preto para marrom rumo ao firmamento. Este, intimidador, cinza grafite, com nuvens que corriam rápidas, como se fossem devorar toda a superficie. No centro do claustrofóbico local, uma pequena mesa de madeira de lei maltratada. Pregos, manchas, lascas entre outras histórias. De cada lado uma banqueta, mal feitas, desalinhadas, prestes a ruir, vencidas pelos cupins.

Eles, sem se preocupar em beijar o solo arenoso, se encaravam com as mãos entrelaçadas, apoiados cada um por uma banqueta. Olhavam-se nos olhos, com feições serenas, como se pudessem enxergar sonhos, memórias esquecidas, desejos ingênuos. O rosto dele, lascado pelo tempo, denunciava sua sensação de dor e alívio. Como se tivesse consciência de que estava vivendo o auge de sua vida e não chegaria e presenciar seu próprio declínio. Ela era bela, ainda que maltratada, despenteada, de olhos pesados, irradiava luz como o farol que poupa da tristeza, as esposas dos marinheiros. Seu semblante a rejuvenescia, as pequenas dobras no canto dos olhos eram ofuscadas pelos olhos úmidos de adolescente, os lábios corados ligeiramente abertos pareciam estar prestes a gritar uma declaração de amor, daquelas melosas, que só o receptor consegue entender.

Apesar do silêncio, a sensação era de que naquele momento, os dois estivessem derramando o conteúdo de uma vida inteira, suas primeiras palavras, tudo que descobriram juntos, todas as vezes que fora vencidos pelo medo, todos os grandes conflitos, que agora, tinham tanta importância quanto uma folha de calendário do mês passado. Não era discussão, não era conversa, era como um apanhado de tudo que pudesse os definir, que os levou até aquele momento.

Não restava muito tempo a favor e a tensão se percebia maior, conforme suas mãos se apertavam cada vez mais, dando a impressão de que a qualquer momento se fundiriam. O céu, antes cinza, agora era negro, como os cabelos dela. O vento se acentuou e trouxe juntos as primeiras gotas. Logo, a chuva tomou conta do pátio e a água que não fazia cócegas nas paredes imundas, tornava o solo macio e compacto. Eles permaneciam impassíveis, camuflados pela precipitação, agora faziam sua própria chuva. Encharcados de tristeza, derramavam ali cada plano feito, os filhos que não chegaram a ser, a cama espaçosa que nunca foi feita, o gramado largo e verde que nunca foi conhecido.

Pela estreita e única saída, alguém dava passos pesados que ecoavam pelo corredor lembrando o toque de grandes tambores. Nesse momento, cessaram as lágrimas, e um pouco desajeitados pelas algemas que cercavam seus pés e mãos, se levantaram. Arranhando uma nova história no tampo da velha mesa, inclinaram-se um para o outro, até suas bocas se encontrarem. Beijando-se como a primeira e última vez selaram a despedida inevitável, emoldurados por milhões de pingos d’água que os refletiam, ás vezes velhos, outras novos, muitas vezes felizes, e na mesma proporção tristes, mas em todas intensamente vivos.

Conduzidos pelo carrasco, caminharam em direção ao corredor, que apesar de estreito, os comportou lado a lado, de mãos dadas até o final.

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3 Comentários on "De mãos dadas."

  • Karine diz

    Texto lindo!

    Me senti lendo um último capítulo de um romance muito bom.

    Adorei… parabéns!

    Bjs

  • Júh diz

    Me senti triste isso sim.. Mas a idéia de um amor que não teve uma chance me faz ter vontade de ler mais.
    Acho que sou dramática. =)

  • Chorei!

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