Eu, Spock e meu pai.

Leonard Nimoy representou um dos papéis mais icônicos da história do cinema. Todo mundo conhece o “Spock”. Todo mundo faz (ou tenta fazer) o sinal com as mãos. Vida longa e próspera. Eu o conheci bem pequeno, quando ainda não tinha idade para entender todas as nuances daquelas histórias. Meu pai, fã da série, foi quem me apresentou. E foi com Star Trek que tentei me apresentar a meu pai.

Envelhecemos distantes. Queria um pai amigo, tive um pai austero. Ele nem isso teve. Por mais que tenha morrido apenas nos anos 2000, não cheguei a conhecer meu avô paterno, suspeito que nem meu pai. Em vez disso tive/tenho um avô postiço, fruto do segundo casamento da minha vó. Pra mim foi legal, mas não pro meu pai, seu padastro tinha apenas 10 anos a mais que ele.

Quando me senti adulto, por volta dos 23 anos, sabia exatamente o que fazer para resolver todos os problemas do mundo, então comecei meu plano infalível de aproximação ao meu pai. Isso foi logo após ele ter se separado da minha mãe, oportunidade perfeita para sermos brothers, não?
Logo após instalar o Home Theater em seu novo apartamento, o presenteei com um box de DVDs da série original de Star Trek. Quem sabe poderíamos assistir juntos. Ele adorou o presente, mas o convite nunca veio.

Em 2009, uma nova oportunidade. J.J. Abrams lançou seu remake de Star Trek. Agora sim, um diretor da minha geração contando histórias da geração do meu velho, não tinha como dar errado. Pra me certificar, não esperei convite, o fiz eu mesmo. Ele gostou da idéia. Mas enrolou. E no fim do ano, nem que quisesse poderia cumprir sua promessa, ficou doente por meses, mal podia sair da cama.

Assisti o filme sozinho, um dos meus preferidos até hoje, e na hora que Leonard Nimoy, o ator da série antiga se encontra com Zachary Quinto, sua nova versão, minha garganta apertou. Sei que aquele era o momento em que eu e meu pai nos encontraríamos. Era ali que finalmente teríamos algo em comum. Mas estava assistindo sozinho.

Não sei se meu pai chegou a assistir o filme de 2009, mas sei que o de 2013 ele não viu. Em 2011 finalmente nos aproximamos. Ao longo de três quartos do ano, sentei ao lado de sua cama de hospital. Dia sim, dia não o visitava. As vezes dormia por lá. Nas noites boas papeávamos sobre trabalho. Era o que ele gostava, As noites ruins eram bem ruins. Aqui e ali arrancava um momento de honestidade. Quando me ligou de madrugada por que estava tendo um ataque de ansiedade. Quando confabulava o que ele faria assim que saísse dali. Era alguma coisa, mas não do jeito que eu queria.

Quando ele se foi, não tive uma grande lição, uma cinematográfica redenção, fomos os mesmos até o fim, nunca fomos amigos, por que as vezes não é assim que a vida funciona. Achava que a face da morte o faria enxergar as coisas diferente, que ele me falaria que preferia ter passado mais tempo comigo. Mas não, ele viveu a vida do jeito que achou que tinha de viver. Imagino que é uma maneira boa de passar seus últimos dias. No fim das contas sua vida não foi longa, mas pelo menos a seu ver, foi muito próspera.

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