Graças a…

Júlio sempre fora cabeça dura. Contestava tudo e todos, mas a sua maior birra era com Deus. Quando criança, sua vó sempre lhe falava “Todas as noites antes de dormir, agradeça sempre a Deus”. E como toda criança, sem questionar, agradecia; mas nunca foi um agradecimento sincero, era algo automático, como quando perguntamos “Tudo bem?” e nem estamos aí pra que a pessoa está sentindo de verdade. E assim foi sua infância “Obrigado Papai do Céu”, noite após noite. Até que um dia o pequeno Júlio tomou consciência do que estava falando e começou a se perguntar “Mas por quê estou agradecendo ao Papai do Céu?”. A avó indignada foi falar com o pequeno Júlio:

– Larga de ser malcriado moleque! Um dia ainda Deus vai te castigar!!
– Ele que castigue, afinal Papai do Céu não existe! – retrucava Júlio.
– Tudo que você tem foi Deus quem te deu!
– Foi nada! O Papai (daqui da terra) é quem comprou tudo! – E quanto mais a avó insistia, mas o Júlio batia o pé com satisfação. Quanto mais ela brigava, mais crescia a convicção que Papai do Céu não existia.

E assim cresceu o pequeno Júlio, mas ainda não acreditava no Papai do céu (a essa altura já o chamando de Deus e não mais de Papai do céu). Sempre que ouvia alguém exclamando “Graças a Deus”, Júlio já emendava “Graças a Deus nada! Graças ao empenho da nossa equipe que trabalhou muito para que desse certo”, ou “Graças ao bombeiro que chegou a tempo”, ou algo parecido. E sempre ouvia de volta “Júlio, um dia Deus ainda vai te castigar!”. Claro que Júlio ouvia isso e pensava que era uma grande bobagem, afinal era um homem bem sucedido na carreira, com mulher e filhos lindos, tinha uma casa no melhor bairro, um carro importado e um cão labrador que amava, todos que o conheciam o adoravam, apesar de ser um pouco cabeça dura e sempre ganhar todas as discussões, se era aquilo um castigo, então que continuasse a ser castigado.

E foi assim, até que um dia saindo de casa, teve um ataque cardíaco fulminante e morreu repentinamente. Ninguém imaginava que Júlio poderia ter um ataque cardíaco, afinal, ainda era relativamente jovem e nunca tivera nenhum problema de saúde antes. Por isso todos afirmavam:

– Foi castigo de Deus!

Júlio já lá do outro lado retrucava:

– Que castigo de Deus que nada! Foi aquela maldita gordurinha que nunca tirava da picanha!!!

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