O saco de Deus

Júlio, cabeça dura e ateu desde criancinha, morreu de um ataque cardíaco fulminante. Já no além ele encontra com dois anjos, com quem começa a falar:

– Então vocês existem, existe vida após a morte! E provavelmente deve existir Deus!
– Sim, Ele existe, inclusive quer falar com você urgentemente! – Disse um dos anjos segurando uma espada de fogo nada amigável.

Júlio sente um tremor na espinha e começa a seguir os anjos. “E agora? Ele realmente existe e deve estar furioso comigo, que sempre fui mal agradecido e nunca acreditei nele, apesar de ter me dado uma vida maravilhosa, ser bem sucedido na carreira e tudo mais que já foi explicado na crônica acima”. Assim Júlio entra no escritório de Deus com duas pedras em mãos (metaforicamente falando, afinal o que adiantariam duas pedras contra o Criador de tudo?) esperando o sermão que iria levar. Deus era um cara de meia idade sem barba na cara com um óculos de aros grossos usando umas sandálias surradas. Deus então começou a falar:

– Seja bem vindo filho! Espero que fique à vontade aqui no céu! Aceita uma bebida? É só pegar no frigobar.
– Mas como assim? – Júlio responde já sem entender nada – Como eu posso estar aqui no céu se eu nunca acreditei em você?
– Ora que bobagem Júlio. Eu não tenho essa vaidade toda de só deixar entrar aqui quem acredita em mim. Você sempre foi uma pessoa boa, sempre ajudou os outros, educou muito bem seus filhos, nunca traiu a sua mulher – Júlio pensa “ainda bem que Ele não sabe da Ritinha” – bem, quase nunca, mas estou relevando aquela vez com a Ritinha, porque você sabe né, ninguém é de ferro e essa Ritinha que ficou te importunando. Ou seja, você sempre foi um homem íntegro, por isso não tem motivos que impeça você entrar aqui.
– Não!! Isso não tá certo!!! Acho que aí tem coisa!! Eu não acreditava em Você e sempre me falaram que ia ser castigado!! Cadê meu castigo??
– Pára com isso Júlio, eu não vou castigá-lo! Pode entrar aqui no céu livremente!
– Não entro!!
– Larga de ser cabeça dura!! Entra aí logo e não enche o saco!!
– Não vou entrar e pronto!! Eu quero ir é para o inferno!!
– Você não vai pro inferno porra nenhuma porque você é uma pessoa boa!! Você vai entrar aqui por bem ou por mal!!!

Júlio sentindo-se contrariado dá um chute no saco de Deus (sim, Deus tem saco, afinal, nós não fomos feitos à imagem e semelhança Dele?) e foge para o inferno. Deus já tentou convence-lo a voltar pro céu várias vezes, mas depois do décimo quarto chute no saco, acabou desistindo. E assim Júlio vive até hoje no inferno, satisfeito por ainda não ter perdido nenhuma discussão.

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