O Homem da Casa

A vida às vezes nos prega peças inimagináveis. A minha vida virou de cabeça para baixo depois da chegada dele. Vou lhes explicar melhor. Meu nome é João Carlos Sampaio, tenho 42 anos, casado, tenho uma filha de 20 anos chamada Maria Clara. Trabalhava como consultor em uma firma de renome, morava em um apartamento em Copacabana. Mas agora tudo isso mudou.

Tudo começou em um final de semana no início do ano quando minha filha resolveu apresentar seu novo namorado. Até aí tudo bem, afinal eu já conheci os namorados anteriores dela e apesar de eu pegar no pé deles, lá no fundo sabia que era implicância minha, pois eram todos bons rapazes vindos de famílias de respeito. O nome dessa vez era Horácio e ela falava que era mais velho. A minha surpresa quando eu o conheci é que ele tinha 40 anos! Quase a minha idade! E ainda pior: era casado! Como poderia eu deixar a minha única filha, mimada desde sua terna infância, se envolver com um cara desse? Fui contra no ato, mas ela retrucava falando que ele ia se divorciar logo e que realmente se amavam. Boa coisa que não poderia sair daí. Tentei proibi-la de encontrar o cara, infelizmente nada adiantava. Ela saía escondida, ou mentia para mim que iria para casa de uma amiga. Até que chegou um momento que percebi que não tinha mais controle sobre a minha menininha – descobrir isso ainda dói em meu coração. Deixava-a sair, embora sempre com olhares de reprovação.

E assim continuou o relacionamento entre eles, se encontrando escondidos para a mulher de Horácio não descobrir. Após 7 meses nesse engodo, resolvi dar um basta na situação, chamei o Horácio para uma conversa séria. Falei com ele o que achava do relacionamento deles, e que tomasse uma providência logo. O bastardo abaixou a cabeça como se arrependido e respondeu com o maior ar de seriedade, como se ele fosse o dono da situação “-Não se preocupe, não irei mais expor a Clarinha desse jeito; enfim vou tomar uma atitude séria”. “CLARINHA”? Quem ele pensa que é para chamar a minha filha “Maria Clara Sampaio” de “Clarinha”? Pensei em avançar em sua jugular, mas não o fiz, porque sabia que para ele a minha filha era apenas mais um caso, aquela velha crise dos 40, e logo tudo estará terminado. Eu mesmo já tive um caso alguns anos atrás, mas minha mulher descobriu tudo. O impressionante que foi aí que descobri que a amava mesmo. Larguei a amante na hora e fiz de tudo para que me perdoasse. Depois de muito tempo ela me perdoou e prometi que nunca mais sequer olharia para outra mulher.

Na semana seguinte veio a notícia. Horácio me ligou pessoalmente para falar que havia se divorciado e queria se casar com a minha filha. Não imaginam o que eu senti na hora. Meu estômago embrulhou, comecei a suar frio, a minha visão escureceu e só consegui responder “-Agh?”. Pensei que fosse um início de um infarto, mas não, era pior, era a minha filhinha se casando com um cara que poderia ser o pai dela – isso se já não fosse eu. Eles se casaram pouco tempo depois. Mas a grande desgraça ainda estava por vir. A mulher de Horácio entrou na justiça e se apropriou de todos os bens dele, e mais, ela é filha do dono da empresa o qual trabalhava. Portanto Horácio perdeu todos seus bens e ainda o emprego. Sem ter onde ir, a minha mulher resolve acolhe-lo em casa! O lado positivo é que teria a minha filha de volta, mas nunca mais seria a mesma coisa com o Horácio junto a ela.

Já havia se passado dois meses e ele ainda não havia conseguido um trabalho. Sempre que perguntava ele respondia prontamente “-Você sabe né, na nossa idade é muito difícil contratarem a gente”. O que essa cara está falando? “Nossa idade?” Qual é? Eu sou 2 anos mais velho que você e não fico reclamando, além disso EU tenho um emprego! Ele ficava o dia inteiro em casa, a não ser pelas manhãs onde ia correr no calçadão de Copacabana. Havia dominado a casa. A Dona Maria, nossa empregada, já perguntava para ele sobre a lista de compras, era ele quem decidia o cardápio do dia, suas coisas já estavam espalhadas por todos os cantos, ia passear com o cachorro e eu já não era o “Homem da casa”. Cada dia a situação piorava. A minha filha mal falava mais comigo, pois não largava seu “maridinho”. Se precisasse de qualquer coisa, o pai, o exemplo, o ícone que representava a experiência, era substituído pelo Horácio. Além de ter roubado a minha filha de mim, ainda roubou o meu papel de pai! A minha mulher começou a me comparar com ele “-Você podia ser tão prestativo quanto o Horácio”, ou então “-Por que você não vai correr com ele pelas manhãs? Veja como ele está em forma”. E até o meu cachorro parou de me obedecer, é só ver o Horácio para ele ir de rabo abanando. O pior era ouvir que éramos parecidos, sempre me perguntavam se éramos irmãos. E eu agüentava tudo isso. Mas tudo parou de fazer sentido quando eu cheguei em casa e vi aquela cena. Não podia acreditar que ele chegaria a esse ponto! Ele estava na MINHA poltrona, com o MEU robe, tomando o MEU whisky e, pior, lendo a MINHA Gazeta Mercantil! Ninguém daquela casa ousaria ler a

Gazeta Mercantil antes de mim! Foi a gota d’água! Tinha que tomar alguma providência!

O plano era perfeito! Contratei uma garota de programa, mas não qualquer uma, a mais linda de todas, uma morenaça de olhos azuis, daquelas com cara de modelo e corpo malhado de fazer inveja a qualquer personal trainer. Maravilhosa!

Combinei com ela (seu nome era Carol) para que começasse a correr no calçadão de Copacabana e “acidentalmente” encontrasse com ele. E depois de uma bela duma conversa, que marcassem para se encontrar na sexta-feira em casa, pois na sexta ele sabia que a Dona Maria estaria de folga e que a Maria Clara viajando para um curso. E como eu e a minha mulher trabalhamos o dia todo, eles teriam a casa livre. Falei que chegasse às 14hs em ponto e que o agarrasse a qualquer custo, mesmo que contra a vontade dele, nem que seja à força. Aí eu chegava com a Maria Clara umas 14:30 e pegaríamos no ato! Sabia como a minha filha era orgulhosa e nunca o perdoaria por isso. Até hoje ela ainda fica ressentida comigo por eu ter traído sua mãe. Ela sempre fala se fosse no lugar dela, eu nunca teria voltado para casa.

Estava saindo como o planejado, combinei que eu compraria a passagem e levaria a minha filha para o aeroporto no dia, portanto faltaria o trabalho depois do almoço. A Carol já havia encontrado o Horácio e ele tinha sido bem “receptivo” e já estava marcado o encontro entre os dois na Sexta.

Chegando na sexta, peguei a minha filha e a levei para o aeroporto, e por um “engano” meu a passagem que comprei era só para às 20hs. Mas como pude me confundir assim? Então o jeito era voltar pra casa e esperar até lá. Se corresse daria pra chegar em casa por volta das 14:30. Corri ansioso para que nós pegássemos os dois no flagra e depois fazer o meu papel de pai e consolar minha pobre filhinha. Chegamos lá um pouco antes das 14:30. Entrei em casa pronto para ver a cena e para meu espanto o Horácio estava em casa sozinho! Calmamente ele ouviu a história do vôo só ser às 20h e levou Maria Clara para passear. Eu fiquei em casa pensando no que poderia ter acontecido. Logo após ouvi a campanhia. Abri a porta e era a
Carol, linda, com um vestidinho mínimo, mas ligeiramente despenteada e com os olhos castanhos (?). Ela não falou nada e chegou me agarrando. Tentei falar que não era eu, tentei empurra-la, tentei gritar, mas ela seguia muito bem as minhas instruções de agarrar à qualquer custo, mesmo que use a força. E que força ela tinha! Aquela malhação toda a deixava mais em forma que um velho quarentão como eu. Quando me dei conta ela já estava nua em cima de mim, e eu ainda tentando me debater. Repentinamente a porta se abre a aparece a minha mulher mais cedo e me flagra nessa cena. Como iria explicar tudo? É, não havia jeito, tava ferrado!

Mas o que tinha acontecido para a Carol se atrasar e a minha mulher voltar pra casa cedo? É aí que entra a vida com suas peças. Vou lhes explicar o que houve. Vindo para cá, Carol para chegar na hora, acaba ultrapassando um sinal vermelho e acidentalmente bate no carro que coincidentemente era o qual a minha mulher dirigia. Sabendo que não poderia se atrasar, Carol acaba fugindo do local do acidente, mesmo sem sua lente de contato, que havia caído durante o impacto do carro. Por ter 4 Graus de miopia e 2 de astigmatismo e estar sem lente, acaba errando o caminho e se atrasando mais ainda. Ao chegar em casa, Horácio já tinha dado um jeito de sair e levar Maria Clara para um passeio, me deixando sozinho. Quando atendi a porta, ela pensou que eu fosse o Horácio, já que estava sem lentes (por isso seus olhos não eram mais azuis), e foi logo me agarrando. A minha mulher depois do acidente de carro, vai à delegacia fazer o Boletim de Ocorrência, e descobre que deixou o cartão da seguradora em casa. Por isso volta mais cedo em casa para pegar o cartão, mas infelizmente acabou é me pegando em uma situação ligeiramente desfavorável.

O resultado disso? Bom, como fui considerado reincidente no caso de traição, a minha mulher não quis nem me ouvir e me expulsou de casa; minha filha que ainda não havia engolido a história da primeira vez me “deserdou” (se é que se pode uma filha deserdar um pai); meu cachorro nem se lembra de mim; o meu chefe sabendo da história acaba por me despedir por ter faltado o trabalho para encontrar a minha “amante”; e o pior, ainda não consegui a transferência da minha assinatura da Gazeta Mercantil para o hotel que estou. A vida nos prega cada uma…

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