El Toreador

Juan “El Matador” Rúan foi o maior toureiro de seu tempo. Seu nome era aclamado por toda Espanha. Filho de um grande toureiro, neto de um grande toureiro, bisneto de outro grande toureiro; assim segue a linhagem de grandes toureiros à incontáveis gerações. Comentários do tipo “Forte como um touro” ou “Pegar touro à unha” são expressões criadas para Juan “El Matador” Rúan e depois difundidas pelo mundo. Sua força e agilidade eram incomparáveis. Nenhum touro resistira à técnica de Juan, até que encontrou o El Grande Toro Mephisto, que já havia matado 30 toureiros e deixado mais 50 feridos. Foi uma batalha épica, a Espanha inteira havia parado para ver o grande desafio. No fim não deu outra: 31 toureiros mortos e 63 feridos (os treze feridos foram os que tentaram acalmar o touro depois).

Felizmente Juán deixou um filho para continuar seu legado. Seu nome era Jorge Rúan. Garoto forte e habilidoso, tinha tudo para seguir os passos de seu padrecito. Mas algo estava errado. Desde pequetito não se interessava pelas touradas e sim pelo boxe. Acompanhava todas as lutas de Classius Clay, George Foreman, entre outros, embora nunca conseguira acompanhar nenhuma tourada de seu padre. E desde cedo já levava jeito para a coisa. Batia em todos pequenos muchachitos da sua sala no colégio, e não contente ainda batia em todos grandes muchachones de vários anos na sua frente. Sua Madre sempre ficava inconformada com o garoto. Sempre dizia que era un esporte mui bruto, não havia a finesse e a plasticidade de uma tourada. Mas Jorge via apenas finesse e plasticidade nos grandes boxeadores, com suas esquivas, jabs e diretos. Uma verdadeira dança em ringue, cheia de elegância e fúria, era sublime e ao mesmo tempo selvagem, isso o fascinava; e não uma carnificina de pobres animais.

Obstinado, Jorge começou a lutar profissionalmente. Sua madre morria de desgosto e sempre tentava incentivar o niño a virar um toureiro. Não adiantava, sentia que nascera para lutar boxe. Em pouco tempo já era conhecido em toda Espanha como José “El Toreador” Rúan (afinal, seria redundante colocar o apelido de “El Boxeador” em um lutador de boxe). Sua direita era estrondosa. Não havia oponente igual. Invicto em sua carreira, acaba virando campeão mundial de boxe. Era aclamado por todos os cantos do mundo. Mas isso apenas deixava sua madrecita mais envergonhada. Como podia seu niño, que saíra de seu próprio ventre e com uma linhagem nobre, ser conhecido no mundo inteiro como um simples “boxeador”. Não que ser boxeador seja ruim, mas la madre de Jorge considerava a palavra “boxeador” como um sinônimo de algum tipo de troglodita baixo nível.

Jorge “El Toreador” Rúan já conquistara quase tudo em sua vida. Era um ídolo moderno, possuía todos os títulos possíveis, tinha muito dinheiro. Mas faltava conquistar apenas uma coisa, o respeito de sua mãe. Jorge “El Toreador” Rúan desiste de sua carreira no boxe para entrar no mundo das touradas e acabou virando o Jorge “El Boxeador” Rúan. Sua madrecita não se agüentava de orgulho e emoção no dia de sua estréia como toureiro. Não havia chorado tanto nem em seu casamento ou na morte de seu marido pelo El Grande Toro Mephisto. E justo na estréia, o touro que iria desafiá-lo era nada mais que o filho de El Mephisto, o El Grande Niño do Grande Toro Mephisto, também conhecido como El Mephisto Junior. Estava aí a grande chance de vingança de seu padre e ao mesmo tempo a chance de fazer com que sua madre realmente tenha orgulho dele.

O estádio estava lotado, o evento estava sendo transmitido para 253 países. A tourada estava sendo considerada o maior evento na Espanha desde a Revolução Espanhola, só que com muito menos mortes. El Mephisto Jr. já tinha ultrapassado as estatísticas do pai, com 59 toureiros mortos e 135 feridos. Enquanto Jorge “El Boxeador” possuía em suas estatísticas 195 vitórias por nocaute com sua poderosa direita, 85 por nocaute técnico, apenas 3 vitórias por pontos e nenhuma derrota. Foi uma batalha épica, como a de seu padre. No fim não deu outra: 196 nocautes com sua poderosa direita, 85 por nocaute técnico, apenas 3 vitórias por pontos e nenhuma derrota; tudo isso para delírio de quem assistiu a luta e para desespero de sua pobre madrecita.

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6 Comentários on "El Toreador"

  • vandreza diz

    Leo, adorei El Boxeador, El toreador, el torito junito… beijos, estou com saudades…Van

  • hahahaahaha… ¡arriba, muchacho!

  • paulo roberto vasconcellos diz

    no fim, não deu outra: 9 crônicas, 5 lidas e uma mais legal que a outra.

  • ironia inatingivel

  • Rosani diz

    Leo vc está de parabéns..muito bacana suas crônicas…

  • leandro diz

    todas lidas….vc esta de parabéns,uma super abraço!!!

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