Ao ser avô

Outro dia estava conversando com um amigo meu sobre o relacionamento entre as diferentes gerações. Sempre é complicado, temos objetivos, visão de mundo, prioridades e até falamos línguas diferentes. Mas apesar das diferenças, amamos nossos pais e avôs. Nem tanto pelo que temos em comum, mas justamente pelas diferenças. Mas voltando à conversa com meu amigo, ele afirmou que quando tiver netinhos, será o avô mais legal do mundo; vai estar sempre na moda e conversar de igual para igual com eles. Doce ilusão. Certamente com as melhores intenções, mas infelizmente é uma tentativa fadada ao fracasso. Tem coisa mais ridícula que um velhinho tentando ser “moderninho”? Falando gírias ultrapassadas pensando que são atuais por já não serem do tempo deles (e nem mais do nosso). Soa falso, kitsch.

E depois as gírias estão sempre em movimento, se renovando, bicho! O negócio é se conformar que nem sempre a gente pode estar na onda, ser o fera radical, o tremendão do momento. Atualmente é do peru falar gírias como “o pico tá bombando”, mas pode ter certeza que futuramente será uma das coisas que certamente nos arrependeremos de ter falado um dia. Mas xuxu beleza, essa renovação é natural. As gírias são feitas para acabar, é um “produto” descartável. Criamos, usamos e jogamos fora. Não há muito espaço para gírias antigas. Os dicionários são elitistas e conservadores demais para deixarem entrar tamanho pandemônio. Os textos modernos não querem parecer que pararam no tempo. Só restam lugares na boca de quem viveu o tempo em que se era cobra em pogobol, ou onde meia-soquete era uma brasa, mora, ou então quando os pimpolhos eram realmente supimpas!

Caro amigo, ao ser avô, não tente ser algo que não você não é. Use gírias do seu tempo, afinal quem mais as usaria sem parecer ridículo? Quer coisa mais meiga que uma avó que faz “quitutes batutas” (olha que sonoridade!) para seus netos? Ou então um avô que ao invés de evacuar, faz “pututu”? Aposto que “pututu” é bem mais higiênico e poético que excremento. Não invada o mundo deles, pois provavelmente invadirá o mundo errado. Ou então se quiser ser realmente moderno para seus netinhos, fale e ensine-os muitos palavrões – para divertimento de seus netos e desesperos de seus pais. Palavrões nunca saem de moda. Mas a “imutabilidade dos palavrões” já é motivo para outra crônica (que, por sinal, já escrita por nosso colega Murilo).

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2 Comentários on "Ao ser avô"

  • Anninha diz

    Batuta, Leo!

    Ficou mesmo supimpa ou, como diríamos hj, tudo de bom, tesão!

    O pior de tudo é que é mesmo verdade. E se pegarmos um pirralho de uns 13 ou 14 anos, vamos ver que nós já estamos (mesmo que infmamente) ultrapassados. (ou seria criar um “superpassados”, um “medianamentepassados” ou sei lá!? *rs*)

  • paulo roberto vasconcellos diz

    Puxou o vô, heim?

    como vc sabe, é assim que o meu avô costuma elogiar seus netos, que é o oposto de sua célebre frase: “você é burro heim, vô?” que ele diz pra gente quando aborrecido. (Meu avô, entre outras coisas, tem essa mania engraçada de chamar os netos de vô). Em casa a frase pegou, quando alguém faz merda o outro logo diz: “Você é burro, heim, vô.” Até meus amigos às vezes falam isso.

    Eu acho o meu avô muito engraçado. E é justamente pelo fato dele ter um universo totalmente diferente do meu. O leo tem toda razão. É bem melhor ter um avô que te ensina palavrões do que um modernoso. Ainda mais se for palavrões em árabe (que como todos sabem, são os melhores xingamentos do mundo).

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