Maíra e o Estojo

Mais uma daquelas festas chatas. Um monte de gente semi-desconhecida com papos desinteressantes. E sem poder beber, pois estou dirigindo. É duro ser responsável. Não estou com um mínimo espírito aventureiro para arriscar alguma aventura romântica hoje, ainda mais depois dos foras das últimas vezes. Acho que não levo muito jeito para o cargo de conquistador. A melhor coisa a se fazer é sair de fininho antes que alguém perceba e emende um “mas já está indo?” ou “a noite ainda é uma criança”.

Peguei a chave do carro e quem eu vejo em minha frente? Maíra. Linda como me lembrava. Aliás, muito mais linda do que eu poderia lembrar, pois a última vez que a vi ainda estávamos na quinta série. Os anos realçaram sua beleza de mulher, mas ainda possuía aquele ar jovial, quase moleque. Estudamos juntos da primeira até a quinta série, quando acabei mudando de colégio. Éramos amigos, pois ela era a única garota que brincava com os meninos. Jogávamos bola e brincávamos de polícia e ladrão. Para ela não havia aquela besteira de brincadeira só de meninos ou só de meninas.

Na quinta série é que tudo começou a dar errado. Ela começou a gostar de meninos e nós meninos começamos a gostar dela. Também, quem resistiria àquela doce loirinha de olhos azuis? Mas como todas as meninas, ela não dava bola para gente, só queria saber dos garotos mais velhos da sétima série. Dizia que éramos muito imaturos. Eu, para provar toda minha maturidade e chamar sua atenção, roubava seu estojo e saía correndo pelos corredores do colégio com ela me xingando atrás de mim. Nunca tive a oportunidade de dizer o quanto gostava dela.

Para saber o quanto ela me marcou, posso fazer algumas comparações. Digamos assim, se o Don Juan a tivesse conhecido, ele seria monogâmico até hoje; se o Humphred Bogart em Casablanca a tivesse conhecido, ele não teria ficado com o comissário de polícia no final; se David Cronemberg a tivesse conhecido, só dirigiria comédias românticas interpretadas pela Meg Ryan; se Roberto Carlos a tivesse conhecido, trocaria as músicas sobre as gordinhas, as mulheres de quarenta e as de óculos por músicas sobre loirinhas de olhos azuis; se o Stephen King a tivesse conhecido, só escreveria romances açucarados. Acho que deu para pegar o espírito.

O importante é que ela está em minha frente agora. É a oportunidade que sonhei em toda minha vida. Sou muito mais maduro que na quinta série, não roubo mais estojos de ninguém e estou mais desinibido que antes (apesar das minhas pernas ainda tremerem e sentir aquele friozinho na barriga sempre). Mas o que eu falo para ela? “Oi! Lembra de mim? Eu roubava seu estojo na quinta série.” – Essa é provavelmente a frase mais babaca que alguém poderia falar!

Ela me viu e está sorrindo para mim! Ela está vindo em minha direção! Meu Deus, o que eu faço? Não estou acostumado com garotas lindas como ela vindo desse jeito falar comigo. Será que tem algum buraco no chão para eu enfiar minha cabeça?

– Oi! Lembra de mim? Você roubava meu estojo na quinta série! Sou eu, a Maíra! (Caramba, acho que foi a frase mais poética que escutei na minha vida! Agora responda a altura, algo do tipo: “Claro que lembro, nunca me esqueci de você. Aliás está mais linda que nunca”.)

– Ah-Bah-Buh-Nah-Uuhnn… (??? O que foi isso que disse???)

– Sabe que eu sempre lembro de você? A gente se divertia naqueles tempos! (Ela se lembra de mim! Isso é um bom sinal. Agora é só conseguir balbuciar algo mais que monossílabos. Que tal “Pois é, como nos divertíamos! Que bom que nos encontramos! Senti sua falta”.)

– Ih-Noh-Ah-Buh-Bih-Gah… (Minha boca não responde aos meus comandos!)

– Coincidência encontrarmos na saída. Sabe como é, estava de saco cheio da festa. Sabe quando tem um monte de gente semi-desconhecida com papos desinteressantes? (Ela pensa a mesma coisa que eu! Estou apaixonado! “Eu te amo, quer casar comigo agora?”.)

– Eeh-Iiic-Tah-Mah-Ooh… (Eu já sou um homem maduro, não posso travar desse jeito por causa de uma mulher!)

– É, acho que você não está muito para conversar hoje, né? Desculpe por te incomodar. Já estou indo. Foi bom te encontrar. (Não! Não vá! Fique mais um pouco! Rápido, implore, peça que ela fique! Fique de joelhos, chore, monte um escândalo!)

– Buh-Gah-Guh-Bah… (como sou idiota!)

– Bom, a gente se esbarra por aí. Até mais então. (O telefone! Peça pelo menos o telefone!)

– Guh-Nha-Boo… (Burro! Burro! Burro! Burro!)

Ela se foi. E não consegui falar o tanto que gostava dela. Mas tudo bem, da próxima vez que a encontrar estarei muito mais maduro, desinibido e formulando frases inteiras! Quem sabe eu até roube o seu estojo?

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3 Comentários on "Maíra e o Estojo"

  • Pedro diz

    Ah-da-bu-bahn-hen-tfp-flr-uhn-hehehe… (Aí, Joe! Esa crônica ficou bem louca.)

  • paulo roberto vasconcellos diz

    AhAhahahahahahahahahahahahahahahhahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahahaahhahahahahahahahahahaahhaahahahabuábuábuábuábuábuábuábuábuábuábuábuábuábuábuábuábuábuá… É de chorar de rir!

  • Luciana Hakozaki diz

    Eh leo vc gosta mesmo, assim como eu, das comédias românticas da Meg Ryan aposto até q chora, tudo bem, não conto nada se vc não contar q choro também. Outra coisa q também adorei a propósito da crônica anterior foi Amélie Poulain, mais a propósito ainda eu tenho um gato preto…

    Bjo lu

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