Em Frente

Sim, seu gato era preto, mas mesmo assim seguiu em frente. Não olhar para trás, nunca. Foi o que a vida lhe ensinou nesses vinte e tantos anos. Não contava a idade para ninguém. Foi o que sua mãe lhe ensinou no auge de seus eternos “trinta e algo”. Sempre se dizia “a garota mais azarada da face da Terra”. Já não era assim tão garota, mas continuaria se chamando de garota até sua morte por volta de “sessenta e muitos”. Tudo que tinha no mundo era seu orgulho (além de seu gato – chamado de Marquês).

Nunca se sentiu verdadeiramente à vontade na vida. Suas coisas nunca pareciam realmente suas. Não se encaixava no mundo. Nunca foi popular. Odiava tudo que estava na moda. Não assistia novelas nem programas de auditório. Estava mais para David Cronemberg que para Wes Craven. Mais para os irmãos Coen que os irmãos Farrelly. Mais para Fellini que as comédias românticas com a Meg Ryan. Mais para mambembe que para Brodway. Nunca quis ir para Disneyworld, mas adorou Rei Leão. Não acreditava no amor, mas suspirou inúmeras vezes assistindo Amélie Poulain. Nunca gostou dos Ursinhos Carinhosos quando criança, mas seu computador tinha um screensaver da Florzinha, da Lindinha e da Docinho.

Era fã da PJ Harvey, Iggy Pop com o Bowie, Belle e Sebastian, Massive Attack, Portishead, entre tantos outros. Dormiu no show do Sigur Rós no Free Jazz. Foi no show do Kiss (só porque lembrava sua adolescência cantando Rock’n’Roll All Nite) e não conseguiu ver o 3D naquele maldito telão. Amava Oasis na época em que tocava apenas no Lado B com o Fábio Massari e apenas alguns “entendidos” conheciam aquela “banda revelação inglesa”. Odiava Oasis quando começou a tocar em todas as rádios do planeta e os refrões de “wonderwall” eram cantados pelas “patricinhas ignorantes” que tanto repudiava.

Experimentou várias drogas, teve várias bad trips. Fez sexo irresponsável, gozou pouco. Viajou, mas nunca se sentiu em casa. Fez o que pôde, nem assim achou que viveu o suficiente. Sempre faltou algo. Alguém. Abraçava o Marquês bem forte para substituir aquele que faltava. Sempre se envolvia com os caras errados. Tinha uma queda por aqueles que pintavam as unhas de preto, piercing no mamilo e usavam bandanas com glitter. De fato sempre se apaixonava por seu amigo gay. Sonhava com o dia que encontraria o Thom Yorke. Era só no mundo. Ou o mundo a isolava?

Nunca foi a melhor em nada. E também nunca foi a pior. Era sempre mediana. Não se destacava em nenhum lugar em que fosse. Não era daquelas que animavam uma festa, mas também não era daquelas que fica no seu canto sozinha (embora normalmente se sentisse assim). Nunca foi a mais bela das suas amigas, mas também nunca era a mais feia. Já tentou de tudo: tocar instrumentos, pintar, escrever, filmar. Nunca teve paciência e dedicação para levar em frente. Era melhor ouvindo, vendo, lendo ou assistindo do que criando.

Na verdade tinha medo de viver. De virar brega apenas por citar a palavra “felicidade”. Era infeliz por opção (embora nunca admitisse). “Ignorância era o segredo da felicidade”, sempre repetia. Como as pessoas podem ser felizes com tanta merda acontecendo no mundo? Nunca estava satisfeita e sempre se sentia culpada ao menor traço de alegria. Tinha sempre que criticar todos esses seres fúteis que se divertem com seus prazeres mundanos. Chorava escondida em seu quarto. E abraçava mais ainda seu gato Marquês.

Seguiu em frente. Morreu aos “sessenta e muitos” em uma pequena vila no México. Não perdia um capítulo de sua novela, tinha muitos e bons amigos na vila. Fazia dança de salão e chorava nos filmes melosos. Tava mais para Ray Connif do que para Duke Ellington. Mais para John Willians que Danny Elfman. Mais para Homero Brito que Schiele. Achava lindo o quadro de asa de borboleta que sua neta dera de aniversário. Usava vestidos floridos e tinha um santinho na porta de casa. Enfim, era feliz. E sim, seu gato ainda era preto.

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5 Comentários on "Em Frente"

  • Jacaré diz

    Com vinte e cinco ela se casou com um exportador de tequila? É isso?

  • luciana diz

    Fala pra mim, ela é o seu alterego feminino? ou vc andou falando com minha analista?

    Tá muito legal leo! Pa-ra-bens!!!

  • Camila diz

    Ah, Leo, sei la… Acho que me identifiquei… Muito legal, vc eh um observador do comportamento humano.

    Mas… VCS NAO VAO PUBLICAR A MINHA CRONICA NAO?

  • Calma, Camila!

    A gente demora, mas não falha. É que a fila, graças a Deus, não é pequena. Pode ter certeza que sua crônica jájá estará no ar! E com toda a pompa e circunstância que merece!

    abraços,

  • Murilo Boudakian Moyses diz

    Leo, só digo uma coisa. Você conhece muita gente.

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