Aquela velha casa abandonada

Ele sempre voltava sozinho da escola. Não significa que não tivesse amigos, apenas gostava de caminhar só. Morava à umas 5 quadras mas sempre fazia o caminho mais longo só para passar em frente daquela velha casa abandonada. Parava e imaginava quem poderia ter vivido ali, que alguém já chamou aquele lugar de lar, que viveram momentos preciosos antes da casa virar um punhado de escombros e onde provavelmente prometeram passar o resto de suas vidas. Pensamentos complexos para um garoto de apenas 14 anos. Mas adorava ser levado por sua imaginação, um lugar onde mandava, sem ninguém para interferir. Um lugar só seu.
Ela odiava voltar a pé da escola. Morava perto, mas odiava passar na frente daquela velha casa abandonada. Pelo menos sempre tinha companhia de alguém que morava perto. Era amiga de quase o bairro inteiro. Era daquele tipo de garota extrovertida, que sempre puxava papo com qualquer desconhecido. Não gostava de ficar só, tinha medo de ouvir seus próprios pensamentos. Fala mais que ouvia, aliás, falava mais do que pensava. Ávida por mundo e curiosa ao limite resolveu se aproximar daquele garoto que sempre encontrava parado em frente àquela velha casa abandonada.

– Oi!
– ….
– Eu sempre te vejo aqui quando volto do colégio, por falar em colégio, você também estuda no Santo Amorin, né?
– Estudo sim.
– Legal! Eu estudo na sala 7b! Conhece? Eu moro aqui perto, mas acho um saco voltar a pé todos os dias. Você também não acha?
– Ahã…
– Já vi que você não é de falar muito.
– …
– Tudo bem, eu falo por nós dois então, eu sempre gostei de falar mesmo. Eu te via aqui e ficava pensando em que você tanto vê nessa casa aos pedaços, porque se dependesse de mim, eu nem passava por aqui. Essa casa me dá calafrios…
– (…) Fico imaginando as pessoas que já passaram por aqui, como elas viviam, como era a vida deles, e como tudo isso se perdeu.
– (???) Gostei de você. Você é engraçado.
– Sério, experimente.
– Tá legal, eu imagino que aí morou um casal apaixonado que tiveram 2 filhos, um menino e uma menina. E eles acabaram se mudando para uma casa bem maior com um jardim florido e piscina no quintal. Sabe. eu sempre quis ter uma piscina em casa.
– Ahã… Agora imagine todo o amor que já tiveram aqui, toda sua história, todos os momentos importantes que nunca pensaram em esquecer e que hoje em dia são apenas escombros. Não se sente que tudo o que você viveu não vale mais que um punhado de entulhos abandonados?
– Puxa, você é legal. Eu nunca tinha pensado nessas coisas, sempre achei esses papos cabeças legais, mas minhas amigas são meio bobas, sabe? Agora sempre que eu passar aqui vou ficar pensando em tudo isso, e eu não preciso mais ficar com medo.
– É…
– Amanhã você vem aqui de novo? Aí a gente podia ficar conversando mais, é que eu tenho que ir agora senão minha mãe fica preocupada se eu demoro, você sabe como é, né? Mas aqui podia ser nosso ponto de encontro! A gente se vê amanhã? Aqui no nosso lugar?
– Tudo bem…

Ele não apareceu no dia seguinte e procurou outro lugar que fosse só seu.
Ela o esperou até tarde e continuou a ter medo daquela velha casa abandonada.

Compartilhe!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *