Do Fundo da Gaveta

Abri minha gaveta. Não qualquer gaveta onde guardamos roupas ou sapatos e sim aquela onde guardamos tudo que consideramos importante. Não apenas abri, mas revirei. Boletos pagos, notas ficais, marcadores de livro, ingressos de shows e cinemas, cartas e mais cartas, enfim, memórias em forma de papel.

Abro saldo bancário por saldo bancário. Altos e baixos (mais baixos que altos), onde podem durar até 5 anos se protegidos do sol. Em menos de 1 ano, vão todos para o lixo. Garantias de produtos vencidos, lixo. Volto a guardar na gaveta alguns marcadores de livros, sempre em falta quando os procuro, para provavelmente não os achar quando precisar. Ingressos de cinema, Spielberg, Peter Jackson, Altman. Todos para o lixo (mas com todo o respeito). Mais ingressos de cinema, Mostra internacional, filmes franceses, italianos, espanhóis, independentes, qual era o nome daquele filme mesmo? Eu guardo, afinal onde mais vou conseguir lembrar do nome daquele filme com estranho? Ingressos de shows… Esses é preciso selecionar. Eric Clapton? Fica. Carmina Burana? Lixo. Kiss? Ah, tem aquele óculos 3D. Manual de instrução daquele telefone sem fio? Fica, é claro. Aperte a tecla * duas vezes em seguida a #, assim caso queira mudar para tone aperte a tecla 8, ou para o pulse a tecla 3. Nunca consegui decorar isso.

As cartas. Muitas. Reli cada uma, com um peso no coração. Felicitações de Natal e Ano Novo, cartões postais e de aniversário. Declarações correspondidas, ignoradas ou nunca enviadas. Tão mais fácil escrever ao longe que falar na cara. Ordenar os pensamentos antes de falar alguma bobagem, que invariavelmente muitas vezes já falei. Amigos que nunca mais vi, amigas que desapareceram. Promessas de amor, promessas de viagens, promessas de encontros, promessas poucas vezes cumpridas e constantemente engavetadas. Amores eternos, amizades eternas, momentos inesquecíveis. Pego toda as eternidades e os guardo em seu lugar, no fundo da gaveta.

Ainda descubro botões reservas de camisas, clipes perdidos e peças de alguma coisa que provavelmente nunca descobrirei, mas guardo na esperança de ser útil algum dia em minha vida… Assim como tudo que guardo na gaveta.

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2 Comentários on "Do Fundo da Gaveta"

  • paulo diz

    Ei, guarda o nosso pôster do art directors aí.

  • Juliana Furtado diz

    Acho que nossas coisas guardadas nas gavetas não serão úteis algum dia na nossa vida a não ser pelo fato de nos trazerem boas lembranças. É exatamente esta a utilidade delas, não? Pois quando não trazem boas lembranças não merecem a honra de ficarem guardadas na gaveta, e vão para o lixo mesmo. E de tempos em tempos voltamos lá, fazemos uma nova busca, uma nova leitura. Relembramos. Fechamos a gaveta e vamos viver, para arrecadar mais e mais coisas dignas da gaveta.

    Beijos Lepôldo! Adorei! Ju

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